segunda-feira, 21 de agosto de 2017

À atenção do VAR

No sábado houve dois lances que não tiveram a análise que se deveria exigir do videoárbitro.

Primeiro, em Guimarães, não consigo entender como é que Hugo Miguel não expulsou Célis por esta entrada perigosa sobre Coentrão - nem sequer amarelo mostrou! -, mas acho mais grave que o VAR (composto por Jorge Sousa e Álvaro Mesquita) não tenha tomado a iniciativa de agir e informar o árbitro do que se passou.






Mais tarde, na Luz, Eliseu também teve uma entrada que deveria ter sido punida com cartão vermelho:


Os responsáveis pelo VAR eram Vasco Santos e Pedro Fernandes.

As imagens são claríssimas. Nenhum dos lances teve qualquer influência no resultado, que estavam mais que definidos na altura em que as faltas ocorreram, mas situações destas não podem ser toleradas.

Delícia de jogada

Viram com atenção o 5º golo do Sporting em Guimarães? Tudo começa num lançamento de Piccini, junto à nossa área, para Rui Patrício. Depois a bola passa por Jonathan, Gelson, Bruno Fernandes, Jonathan, Gelson, Adrien, Iuri e, por fim, Adrien. Que delícia de jogada.










domingo, 20 de agosto de 2017

Cinco bilhetinhos anti-crise

Golos madrugadores, golos bonitos para todos os gostos, controlo total e absoluto da partida num dos terrenos mais complicados do futebol português - que tem sido sinónimo de más experiências para nós nos últimos anos - e uma avalanche de oportunidades flagrantes para marcar: não podia ter sido melhor a resposta da equipa às frouxas exibições da última semana.

Jesus mexeu no onze e lançou Bruno Fernandes em vez de Podence, mas não repetiu o erro de Aves: colocou-o numa posição mais recuada em campo. Costuma dizer-se que a sorte protege os audazes, e o jogo não podia ter começado de melhor forma: não tinham passado ainda 3 minutos, e foi mesmo de uma posição mais recuada que Bruno Fernandes deu o mote para uma enorme exibição do Sporting. À bomba.




Bruno, o bombardeiro - uma das lacunas da última época foi a incapacidade do Sporting em tirar proveito da meia-distância. Pois bem: ontem, em Guimarães, esteve em campo Bruno Fernandes, o bombardeiro. Na realidade, o termo bombardeiro talvez não lhe faça justiça, tal a potência, distância e precisão dos projéteis: o primeiro golo, então, foi uma espécie de missil intercontinental de última geração. Ia repetindo a graça pouco depois, com um remate que saiu a rasar o poste esquerdo de Miguel Silva. Guardou munições para a segunda parte, marcando o seu segundo golo mais em jeito do que em força - apesar da distância para a baliza - e ainda picou uma bola que embateu na barra. Esta última pode ter sido, na realidade, um cruzamento mal medido, mas não é impossível que tenha sido propositado, tal era a forma em que se apresentou ontem. Ah, e esteve muito bem a fazer jogar o resto da equipa.

O assassino holandês - mais dois golos a juntar à conta pessoal. O primeiro num livre curto batido por Acuña, o segundo num lance desenhado a régua e esquadro por Battaglia e Fábio Coentrão. Já leva três golos em três jogos, que, no seu caso, é, simplesmente, business as usual.

Os estranguladores silenciosos - mais um jogo em que a defesa teve a folha limpa, e é perfeitamente óbvio que isso não é obra do acaso. Em organização defensiva, os jogadores têm estado muito bem na ocupação de espaços e nas compensações e apoios. A linha defensiva esteve muito bem: Mathieu joga com uma eficiência robótica, e promete fazer uma dupla memorável com Coates, mas Coentrão e Piccini também estiveram bem. Em transição defensiva, Adrien, Battaglia, Acuña, Gelson e Bruno Fernandes não demoram a cair nos homens que têm a bola ou que a podem receber de imediato. Resultado: o V. Guimarães não cheirou de perto a baliza de Rui Patrício. Criaram algumas ocasiões de perigo, mas exclusivamente a partir de tentativas de meia distância e de um lapso individual de Piccini. Nota-se que a equipa está perfeitamente confortável quando o adversário tem a bola, o que é um upgrade imenso em relação à época passada.

A alteração de posicionamentos no ataque de Jesus - o treinador colocou Bruno Fernandes um pouco mais recuado, ou seja, mais distante de Bas Dost, e, durante o jogo, trocou os extremos - colocando Gelson na esquerda e Acuña/Iuri na direita. Estas alterações funcionaram em pleno: Bruno Fernandes conseguiu ter mais espaço para pensar o jogo, e os extremos foram motivados a flectir para o meio para tirar partido do seu melhor pé, dando a faixa aos laterais - que subiram no terreno e ganharam a linha de fundo muito mais vezes do que nos jogos anteriores. É certo que o V. Guimarães cedo ficou desorientado - e por isso convém dar o devido desconto às facilidades que existiram a partir de uma determinada altura -, mas isso também se deveu, e muito, à diversidade de ameaças que esta alteração de posicionamentos providenciou.



Cinco a zero em Guimarães. Não vamos ser picuinhas.


MVP: Bruno Fernandes

Nota artística (1 a 5): 5

Arbitragem: Hugo Miguel poderia ter tido uma arbitragem excelente... se não tivesse sido traído pelo VAR. Não há razão nenhuma que justifique a não expulsão de Célis por um pisão em cheio com os pitons na zona do tendão de aquiles de Fábio Coentrão.



Cinco bilhetinhos anti-crise que ajudam a libertar algum vapor da panela de pressão em que o Sporting se transformou após as últimas exibições. Espera-se a abertura da tampa na próxima quarta-feira, com a qualificação para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Por mim, é avançar com este onze em Bucareste.

sábado, 19 de agosto de 2017

Resumo do jogo em 5 segundos

Quem viu o jogo percebe o que é que eu quero dizer.











Jogo de vida ou de morte?

E ao 3º fim-de-semana de agosto, altura em que muitos portugueses ainda vão iniciar as suas férias, e é possível que já haja quem faça do desafio de logo como um jogo de vida ou morte para o Sporting. Para que fique claro, penso que é obrigatório que o Sporting vença os dois próximos jogos: depois de três jogos relativamente pobres no que toca a nota artística, é muito importante, animicamente, que o Sporting passe no terreno de dois adversários que serão complicados; e no caso particular do Steaua, por uma questão do prestígio europeu e do dinheiro que uma qualificação para a fase de grupos da Liga dos Campeões. 

Mas daí estar-se já a fazer o enterro da equipa caso não se vença em Guimarães, parece-me um disparate que só se pode justificar pelos nervos causados pela ausência de bom futebol e por alguns sinais que apontam que esta época seja uma repetição da anterior. Em primeiro lugar, convém haver a consciência de que o Sporting não vence em Guimarães para o campeonato desde a época de Leonardo Jardim. De então para cá, as nossas deslocações à cidade-berço têm sido um desastre, pelos resultados, ou pela forma que os resultados foram obtidos. Depois, não faz qualquer sentido medir uma época inteira pelos resultados dos três primeiros jogos do campeonato - sendo que, até agora, a equipa tem 6 pontos em 6 possíveis.

Não acho que as justificações que Jesus deu na conferência de imprensa de ontem façam sentido - carregadas de incorreções e de desculpabilização própria -, mas tem razão quando diz que é preciso tempo para afinar processos. Se o conseguirá fazer ou não, isso é outra questão: curiosamente, na sua melhor época (2015/16), o Sporting entrou com uma vitória de aflitos frente ao estreante Tondela e empatou em casa com o Paços, enquanto na sua pior época (2016/17) entrou a ganhar de forma categórica contra Marítimo, Paços e Porto. Um início tremido deu origem ao melhor futebol que vi o Sporting praticar nos últimos 20 anos, um início pujante deu origem a uma época deprimente. 

Há muitas coisas a corrigir e a aperfeiçoar, sem dúvida, mas não faz sentido cair no desânimo caso o Sporting obtenha um mau resultado logo, tal como não faz sentido ficarmos eufóricos se a equipa vença em Guimarães e em Bucareste com nota artística elevada. Para o bem e para o mal, a época é longa, demasiado longa para estarmos a fazer juízos definitivos numa altura em que o mercado de transferências ainda nem sequer fechou...

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Redoma

Não foi preciso esperar muito: ao fim de três jogos oficiais, o Sporting prepara-se para entrar numa semana em que muito estará em jogo. A falta de futebol evidenciada preocupa praticamente todos os adeptos, e a pequena margem que Jesus tinha à partida junto de grande fatia dos adeptos arrisca-se a esgotar rapidamente caso o Sporting não se qualifique para a Liga dos Campeões e caso não consiga realizar um jogo convincente em Guimarães.

O mesmo se aplica a vários jogadores do plantel. É visível que a popularidade de William e Adrien já viveu melhores dias - perante o desejo de ambos os jogadores saírem -, Piccini arrisca-se a ser persona non grata tão rapidamente como Alan Ruiz passou a ser na época passada, e também já há quem esteja a disparar na direção de jogadores que até muito recentemente pareciam intocáveis - como Podence e Dost (!). Os nervos podem fazer dos adeptos elementos mais prejudiciais do que benéficos quando as coisas não correm bem: o burburinho (para não falar dos assobios) direcionado para determinados jogadores durante uma partida não os ajudam a melhorar o seu desempenho. Quem acha que os jogadores são completamente imunes a isso, está muito enganado.

Daí que me faça uma enorme confusão que o próprio clube não promova diferentes formas de aproximar os jogadores aos adeptos para aumentar a identificação e empatia mútua. Lembro-me, por exemplo, do contacto direto que os sportinguistas podiam ter com os jogadores junto à porta 10A do velhinho José Alvalade. Tenho perfeita consciência que os tempos, agora, são outros, mas parece-me que o distanciamento entre jogadores e adeptos nunca foi tão grande como ao longo do último ano, apesar de todas as estratégias e ferramentas existentes para promover essa aproximação. Muito por culpa do clube.

Quando é que foi a última vez que houve uma sessão de autógrafos com elementos do plantel? Não me lembro ao certo, mas sei que não houve nenhuma nesta época nem na anterior. Qual foi a última vez que jogadores do Sporting visitaram escolas, hospitais ou instituições de solidariedade? Em maio de 2016, o plantel fez uma visita ao IPO que correu maravilhosamente, mas na época 2016/17 não me recordo de ter ocorrido alguma iniciativa idêntica. Não consigo entender como é que não se promove a interação de jogadores com crianças. Querem melhor forma de cativar aqueles que poderão ser os nossos futuros adeptos?

Mesmo a presença nas redes sociais dos jogadores é, no máximo, pouco mais do que neutra. Há atletas que têm contas onde fazem posts com pequenos e inócuos balanços dos jogos, outros que nem isso fazem e só as usam para efeitos publicitários ou mensagens avulsas. Pela positiva, destaca-se apenas uma ou outra exceção em que se consegue ver algum tipo de interação ou conteúdos que cativem realmente os adeptos - o melhor exemplo é Francisco Geraldes, claro, mas também recordo a interação que Schelotto e Matheus Pereira promoveram no final da época passada. Ou seja, tem dependido mais dos próprios atletas ou daquilo que as redes sociais do Sporting conseguem puxar deles, do que de uma estratégia coerente e bem estruturada do clube.

Há no clube quem trabalhe bem a relação entre atletas e adeptos: o futebol feminino é disso um bom exemplo, e ainda há o caso (perfeito) de Carlos Ruesga.

Não entendo a opção do clube em colocar os jogadores numa redoma, longe dos adeptos. O único contacto que há é em dia de jogo, com todas as restrições e riscos que se conhecem. O que leva os responsáveis do clube a pensar que se ganha alguma coisa ao manter este distanciamento absurdo?

Por definição, um adepto está sempre pronto a apoiar os jogadores do seu clube, mas o nível de tolerância que existe nos momentos menos bons é flexível, e pode ser trabalhado. Podemos também falar na ligação que se constrói com os mais novos: como é que não se usa e abusa da presença de jogadores e do Jubas nas escolas, hospitais e instituições de solidariedade? Para além dos méritos sociais, quantos novos adeptos não se conseguiria recrutar?

Também há algo a ganhar no outro sentido do relacionamento: todos sabemos que os jogadores são profissionais, pode haver quem se sinta aqui apenas de passagem e que são indiferentes aos adeptos, mas há outros que poderão usufruir desse contacto e, quem sabe, ganhar vontade para colocar uma pontinha extra de esforço se se sentirem mais identificados com aqueles que estão na bancada. Como é que o clube quer que os jogadores corram e vençam pelos adeptos, se nunca tiveram contacto com eles?

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

M*rdas que só mesmo connosco, nº 13: O erro faz parte do futebol

"O futebol é um jogo de erro. E um erro é possível. E o erro serve de discussão para semanas, meses e anos." - Ribeiro Cristóvão, 22 de julho de 2017, criticando o VAR após a (correta) anulação do golo de Rony Lopes no Sporting - Monaco

Um dos argumentos mais fascinantes que os detratores do VAR utilizam é o de que o erro faz parte do futebol. A constatação é digna de La Palice: se errar é humano e se o futebol é interpretado por seres humanos, então é inevitável que existam erros no futebol.

No entanto, também faz parte da natureza humana tentar reduzir o erro, quer em quantidade, quer no impacto que têm. Os seres humanos aprendem com a experiência e procuram aperfeiçoar técnicas, metodologias e sistemas que reduzam as probabilidades de voltarem a cometer os mesmos erros. É por aí que deve ser visto a implementação do VAR: é um sistema que não vai acabar com o erro e com a polémica, nem tem pretensões de acabar com o erro e com a polémica, mas que quer (e vai) reduzir a ocorrência de erros grosseiros no futebol.

Dizer que o futebol é um jogo de erro é a desculpa mais preguiçosa que existe. Se o futebol é um jogo de erro, por que razão as equipas treinam todos os dias? Por que razão procuram os melhores jogadores que os seus orçamentos permitem? Por que razão montam estruturas que potenciem o rendimento dos seus profissionais? 

Mas uma coisa são os erros de jogadores e treinadores, no confronto direto contra outros jogadores e treinadores - a melhor equipa também se define pela capacidade de evitar erros e de forçar o adversário a cometer erros. Outra coisa são os erros dos árbitros, que, supostamente, devem ser elementos neutros na equação do jogo.

Numa altura em que a tecnologia nos deixou perceber que o erro dos árbitros é muito mais frequente e muito mais impactante do que se desejaria, é normal que se tire proveito dessa tecnologia para ajudar os juízes a tomarem melhores decisões.

Isto tudo vem a propósito da frase de Ribeiro Cristóvão, que me fez lembrar, numa interpretação mais literal, que nem sempre o futebol é um jogo de erro, no singular: às vezes é um jogo de dois erros, de três erros, ou até de quatro erros... na mesma jogada.

Na jornada inaugural da época 2015/16, o Sporting defrontou o Tondela em Aveiro, casa emprestada da equipa recém-promovida à I Liga. Numa altura em que vencia por 1-0, o Tondela empatou numa jogada em que foram cometidos não um, não dois, não três, mas quatro (!) erros de arbitragem:



Os quatro erros cometidos pela equipa de Carlos Xistra foram:

1. O livre surge de uma falta não existente

2. No momento em que Bruno Nascimento desvia a bola, Luís Alberto (o marcador do golo) está em posição irregular (como se pode ver na imagem ao lado)

3. Luís Alberto ajeita a bola com o braço

4. Antes de a bola cruzar a linha, Luís Alberto dá um segundo toque na bola com o braço

De todas as coisas estranhas que têm acontecido ao clube, esta é daquelas que mais facilmente se digerem: o Sporting conseguiria vencer o jogo nos descontos. Mas esteve muito, muito perto de perder dois pontos por causa de um lance aberrante que, com o recurso à tecnologia, seria anulado com enorme rapidez.

O erro faz parte do futebol, sim. E às vezes dá muito jeito... para alguns.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Copo meio cheio vs copo vazio

Não deve haver sportinguista que não tenha ficado tremendamente desiludido com a prestação da equipa no princípio de noite de ontem. Foi quase tudo mau, e não se consegue entender como é que a equipa produz tão pouco no ataque ao fim de 8 semanas de trabalho. Na pré-época, todos evidenciavam o problema na defesa e ninguém parecia preocupado com a capacidade ofensiva na equipa. Jesus mexeu no onze e parece ter encontrado uma solução para a questão da defesa, mas, infelizmente, resolveu-o à custa da criatividade. Se ainda havia dúvidas depois do que se viu contra o V. Setúbal, o jogo de ontem encarregou-se de as esclarecer em definitivo: no momento de forma atual ao nível individual, iniciar jogos com este onze é dar 60 minutos de avanço ao adversário.




As hipóteses de qualificação - estaríamos todos à espera que o Sporting tivesse dado um passo importante no sentido de assegurar a qualificação. Isso não aconteceu, mas, apesar de tudo, a eliminatória não ficou comprometida. 0-0 é um resultado ingrato para a equipa que faz a 2ª mão em casa, pois fica com metade da margem de erro da equipa visitante. De qualquer forma, o Sporting terá sempre que marcar se quiser passar. Darão os romenos mais espaços pelo facto de jogarem perante o seu público? Provavelmente, sim. O mais importante é saber se será o Sporting capaz de aproveitar esses espaços, face ao que se tem visto ao nível da produção ofensiva.

"Muita fortes a defender" - Jesus, no brilhante exercício de copo meio-cheio que efetuou na flash interview após o final do jogo, destacou o facto de o Sporting ter feito o seu 3º jogo oficial e continuar sem sofrer golos. Concordo que, na primeira parte, o Sporting esteve muito bem defensivamente. O Steaua praticamente que nem cheirou a área de Rui Patrício, com exceção de uma oportunidade criada através do nosso flanco direito que o guarda-redes salvou junto ao poste. Na 2ª parte, a história foi diferente: o Steaua teve duas excelentes oportunidades para marcar quando as pernas começaram a faltar a alguns jogadores. Ainda assim, é justo assinalar as melhorias neste departamento face ao que foi o nosso principal problema na época passada.



Persistência no erro - o Steaua veio jogar com uma estratégia idêntica à do V. Setúbal, e Jorge Jesus apostou na mesma estratégia que utilizou frente ao V. Setúbal. Estranho seria se a combinação desses dois fatores desse um resultado diferente. A solidez defensiva que Jesus elogia deve-se muito ao facto de utilizarmos dois laterais e dois médios centro cuja principal preocupação é assegurar equilíbrios defensivos e que, como tal, pouco ou nada contribuem ofensivamente. Mas se, contra o V. Setúbal, Jesus não foi particularmente lento a perceber que tinha que arriscar mais - colocando Doumbia e Bruno Fernandes à passagem dos 60' -, ontem foi bastante mais conservador. Lançar Doumbia quando a bola não chegava lá à frente em condições dificilmente poderia dar bom resultado. Bruno Fernandes entraria perto dos 70', quando a equipa já se mostrava demasiado ansiosa e cansada para poder passar a atacar com a velocidade e discernimento necessários.

Problemas nas laterais - Coentrão, não arriscando, continua a ser um lateral competente. O problema é que ficou sem pernas demasiado cedo. Aos 70' já andava a passo e não conseguia dominar bolas fáceis. A expulsão do jogador romeno acabou por lhe poupar a humilhação de ser substituído por Jonathan Silva - Jesus voltou atrás na substituição e preferiu lançar Iuri Medeiros quando viu que ia jogar em superioridade numérica no resto do tempo. Piccini, defensivamente também é competente, mas com a bola nos pés parece que fica paralisado sem saber o que fazer a seguir. Não havendo laterais que subam bem e com frequência, o aproveitamento das faixas laterais para criar desequilíbrios fica demasiado dependente daquilo que os extremos conseguirem fazer no 1 contra 1... ou no 1 contra 2. Para além disso, não temos jogadores que saibam centrar.

Ausência de jogo interior - nada que surpreenda, considerando os jogadores que estão em campo. Adrien, que não é propriamente um fora-de-série a criar espaços pelo meio, está num mau momento de forma. Battaglia, quando ataca, fá-lo em condução, e não em trocas de bola. Podence está num mau momento. Dost pode ajudar, mas não é ali que deve desequilibrar. Acuña e Gelson tentam movimentos interiores, mas têm pouquíssimas opções com que trabalhar. Resumindo, neste momento, estes jogadores não chegam para desmontar nenhuma defesa minimamente organizada.

Desorientação - perdi a conta aos passes, cruzamentos e domínios de bola mal efetuados sem haver qualquer pressão ou oposição. Na segunda parte, num livre no meio campo do Steaua, os centrais sobem para a área, mas Adrien bate para trás, e a construção segue como se fosse um lance em que a equipa estivesse organizada. Perto do fim, houve um lance em que o Sporting tinha muitos jogadores perto da área, e foi Doumbia que desceu para receber a bola - ou seja, tivemos o ponta-de-lança a funcionar como 4º ou 5º elemento mais recuado. Demasiados pormenores a falhar que denotam alguma desorientação na equipa quando as pernas, a confiança e o discernimento começam a falhar.



Infelizmente, Jesus tem razão: o Steaua foi um adversário do nosso nível, mas a responsabilidade de isso ter acontecido é inteiramente sua. Não quer dizer que as coisas não melhorem com mais tempo de trabalho e com a subida de forma de certos elementos, mas, neste momento, contra adversários teoricamente mais fracos que não vêm discutir o resultado, este onze não é solução.

É obrigatório vencer os próximos dois jogos, pelo que esperemos que o treinador se consiga desfazer imediatamente dos equívocos em que parece envolvido.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O que é feito de Francisco Vera?



Há coisa de um ano, um programa de investigação de um canal televisivo do Paraguai fez uma reportagem sobre o estranho caso de Francisco Vera, um jogador por quem o Benfica pagou 2,8 milhões de euros.

A transferência foi surpreendente: falamos de um jogador que, quando foi contratado pelo Benfica em 2015, era um desconhecido no próprio país. Tinha 21 anos, mas que não era internacional A, nem sequer internacional Sub-20 pela seleção do Paraguai. Começou a jogar muito novo no Rubio Ñu, mas ao longo dos anos foi perdendo gás. Quando foi contratado pelo Benfica, Vera vinha de uma época em que tinha sido titular em apenas 5 jogos, apesar de a concorrência não ser forte: o Rubio Ñu é um modesto clube de 2ª metade da tabela do campeonato paraguaio que, no século XXI, nunca conseguiu melhor que um 7º lugar (a primeira divisão paraguaia tem apenas 12 clubes).

Apesar disto, o Benfica achou interessante pagar quase 3 milhões de euros pelo seu passe, pulverizando o anterior recorde de uma venda do clube paraguaio, que era de 1 milhão de euros. O Transfermarkt avaliava Vera, na altura, em 25.000€.

A reportagem paraguaia apontava para indícios de lavagem de dinheiro e evasão fiscal na transação, em que, de um lado, um clube que faturava um valor totalmente irrealista e que podia ser aproveitado para legitimar dinheiro de outras atividades ilegais e, do outro, se podia colocar nas contas uma transação inexistente que, reduzindo os lucros, permite diminuir o valor de imposto a pagar ao Estado.

Outro fator estranho neste caso é que, no momento em que a reportagem foi feita, Francisco Vera estava sem clube e parecia não ter perspetivas de continuar a carreira - algo que se pode considerar estranho, já que se tratava de um ativo com um valor não negligenciável. Uns dias depois de a reportagem ser emitida, no entanto, lá se encontrou um clube paraq o jogador: o Benfica emprestou Vera ao CA Fenix, um clube de meio da tabela da primeira divisão uruguaia que está assinalado como um paraíso fiscal desportivo que ajuda os emblemas europeus a cometerem fraudes fiscais.

Quem quiser ler mais sobre o assunto:
- A reportagem: LINK
- Outros detalhes da transação: LINK
- Dissertação sobre as acusações: LINK
- O empréstimo ao CA Fenix: LINK
- As movimentações estratégicas do Benfica: LINK

Um ano depois da polémica ter rebentado, o que é feito de Francisco Vera?

Bem, conforme seria de esperar, não teve uma passagem feliz pelo CA Fenix. Fez meia dezena de jogos, mas rapidamente saiu da equipa. O último jogo oficial, segundo o Transfermarkt data de 1 de outubro de 2016.


No entanto, apesar da parca utilização no Uruguai, a verdade é que o jogador continuou a despertar cobiça: segundo o Transfermarkt, poucos dias após a abertura do mercado de inverno, o Benfica terá recebido uma oferta de 1,5 milhões de euros pela sua contratação. Nada mau para um jogador que, 4 meses antes, teve visíveis dificuldades em encontrar um rumo para a sua carreira.

E que clube foi esse que apareceu? O Rubio Ñu. Voltou à casa de partida.


A base de dados do Transfermarkt não é muito completo no que toca a clubes paraguaios do meio da tabela, pelo que há que colocar as devidas reservas. Tendo isso em mente, e olhando para as maiores transferências na história do Rubio Ñu, vemos que os 1,5 milhões gastos representam um novo recorde, que supera a 2ª maior transferência da história do clube em... 1,5 milhões.


Apesar dos montantes alegadamente envolvidos, não se pode dizer que o seu regresso tenha tido grande pompa. Na conta de Facebook do clube, foram vários os jogadores contratados que tiveram direito a uma publicação de apresentação, mas Vera não teve direito a tal destaque. A única referência que há ao atleta nas contas de Twitter e Facebook é no meio do resumo das contratações desse período:


Desportivamente, as coisas não correram bem: Vera não realizou qualquer jogo pela equipa principal do Rubio Ñu - participou em algumas partidas da equipa de reservas - e, poucos meses depois, no dia 20 de junho, o clube anunciou a dispensa daquela que terá sido a maior contratação da sua história.


No entanto, alguma coisa se terá passado, pois, no mesmo dia:


Gostava de saber o motivo que levou o clube a mudar de ideias tão rapidamente...

Desde então, segundo os registos que encontrei, Vera participou em jogos de pré-época mas continua sem somar um único minuto em jogos oficiais. A conta de Instagram do jogador tem tido atividade, mas não há nada relacionado com futebol. Colocou apenas fotografias da família e um post de publicidade à sua loja de artigos desportivos.


Ou seja, a novela, que desde o seu início está recheada de episódios muito estranhos, continua a não desiludir.

P.S.: não que possa ter alguma coisa a ver, mas não deixa de ser curioso:


"Obras son amores!" podia bem ser o slogan de vida de um determinado presidente de clube que eu cá sei.