quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Consequências da eliminação europeia

Agora que acabou a carreira do Sporting na Liga dos Campeões, já se pode fazer um balanço final sobre a participação do clube na competição. Infelizmente, a única forma de classificar a nossa prestação é esta: um fracasso.

Do ponto de vista de valorização de jogadores, a coisa até nem foi assim tão má. Mas do ponto de vista da afirmação competitiva da equipa e da construção de uma mentalidade ganhadora, não podia ter corrido pior. Por cinco vezes morremos na praia, que é como quem diz, perdemos por um golo, por cinco vezes fomos incapazes de segurar vantagens ou recuperar desvantagens. Se, olhando isoladamente para cada um dos jogos, o Sporting até teve boas prestações em alguns deles, analisando a participação do clube numa forma global, é preocupante que a equipa apenas tenha conseguido pontuar num deles.

Não tive oportunidade de ver com atenção o jogo de ontem. Na primeira parte fui dando uma olhadela esporádica à televisão e não era capaz de reconhecer a minha equipa: havia um jogador parecido com o Bruno César a médio direito, um rapaz com a estrutura física semelhante à do Gelson andava pelo meio do terreno, mais próximo do Dost. Paulo Oliveira andava encostado pelo flanco direito, e um jogador franzino parecido com o Markovic tentava, com pouco sucesso, fazer combinações com Zeegelaar. Aparentemente não funcionou, o que não é de estranhar: é normal que a dinâmica ofensiva sofra com uma rearrumação (ou desarrumação, se preferirem) simultânea que houve em ambos os flancos e no corredor central.

Jesus demonstrou, mais uma vez, que, sendo um treinador de topo para consumo interno, tem dificuldades para se impor na Liga dos Campeões. A estatística não mente. Verdade seja dita, não é um problema que me preocupe por aí além: o Sporting precisa primeiro de se afirmar internamente, pelo que a vitória no campeonato é a prioridade. O facto de podermos focar-nos, daqui para a frente, apenas nas competições nacionais, sem ter de cumprir o preenchido calendário de uma Liga Europa, poderá constituir uma vantagem importante à medida em que o desgaste acumulado da época começar a pesar nas pernas dos jogadores. Não deixa, no entanto, de ser frustrante ver tão poucos resultados para o investimento feito.

Falando em investimento, esta eliminação prematura das competições europeias obrigará, decerto, a uma reestruturação do plantel. No final de janeiro, restar-nos-ão apenas duas competições para jogar: a Liga e a Taça de Portugal. Quando a janela de transferências fechar, no melhor dos cenários, haverá quatro jogos para disputar na Taça de Portugal entre fevereiro e maio. Dá uma média de um jogo por mês. Ou seja, o plantel está sobredimensionado para os compromissos existentes, e muitos dos jogadores - alguns dos quais são bastante caros - terão poucas oportunidades para jogar. 

Pelo que se viu no R&C do primeiro trimestre, o custo salarial será, previsivelmente, ainda mais elevado do que na época passada. Parece-me lógico, portanto, que o mês de janeiro seja aproveitado pela direção para emagrecer o plantel. Não quero entrar em detalhes sobre os jogadores que acho que podem ser dispensados - pois não sabemos que lesões e oscilações de forma acontecerão até lá -, mas parece-me haver muito por onde cortar. Mas isso será conversa para termos daqui a um mês.

Para já, importa recuperar a equipa para domingo. Aquilo que podia ter corrido mal ontem, correu. Nem poupámos jogadores, nem alcançámos o objetivo mínimo que havia para esta competição. Ironicamente, é um fracasso que poderá reforçar bastante as nossas hipóteses de conquistar o título caso alcancemos os três pontos na Luz - um jogo que, não sendo decisivo para ninguém, poderá dar indicações importantes para o que será o resto da época. Fica o desejo de que a equipa consiga dar a volta, no domingo, ao impacto físico e psicológico da péssima noite de ontem.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Jogo para ganhar

Na minha opinião, o jogo de logo, na Polónia, tem de ser encarado como uma final, ou seja, é para ganhar. É uma partida importante, não por assegurar a passagem para a Liga Europa - que é uma competição que, para mim, não compensa os custos que tem para o campeonato -, mas porque me parece fundamental manter o registo ganhador das últimas semanas e evitar a eliminação definitiva de uma das frentes.

Vou tentar explicar-me melhor: acho que teremos mais possibilidades de vencer na Luz se vencermos hoje com a nossa melhor equipa, do que teremos se entrarmos hoje com segundas linhas. Penso que a motivação que poderá advir de uma vitória num dos estádios mais hostis da Europa sobrepor-se-á ao desgaste que a partida de logo poderá causar no domingo.

Em relação à Liga Europa, é manter as opções em aberto, para se ir gerindo em função do resultado do sorteio e do nosso comportamento nas competições internas. Em fevereiro, logo se verá se se justificará considerá-la como uma competição prioritária.

Mas para lá chegarmos é preciso garantir primeiro um resultado positivo na Polónia. A tarefa não se afigura simples. Não é qualquer equipa que marca 3 golos ao Real e 4 ao Dortmund. Em contrapartida, o nosso adversário tem um registo defensivo tenebroso, pelo que teremos que saber aproveitar o previsível balanceamento ofensivo polaco.


O regresso do Football Leaks

E eis que, de forma algo surpreendente, o Football Leaks voltou a dar sinais de vida. No princípio de maio deste ano, o responsável pelo site (que se identificou como John), deu uma entrevista ao Der Spiegel (LINK), onde anunciou que iria fazer uma pausa na divulgação de documentos. 

Na altura, pensei que essa atitude se devesse ao facto de ser um homem perseguido por inimigos muito poderosos. A Doyen acusava-o de extorsão e, segundo o próprio John, Jorge Mendes tinha contratado detetives para o identificar - o que dava a entender que também teria em sua posse documentos relacionados com a Gestifute, apesar de não os ter publicado até então.

Pelos vistos, essa entrevista ao Der Spiegel trazia brinde: apesar de ter anunciado uma pausa nos leaks por 6 meses, aproveitou para passar ao jornal alemão os documentos que recolhera. O Der Spiegel, perante a imensidão da informação que lhe foi colocada à disposição, entendeu ser aconselhável convocar uma série de jornais de outros países para colaborarem na análise dos milhares e milhares de documentos. Esta semana, cerca de seis meses depois da tal entrevista, os vários jornais começaram a publicar o resultado dessa análise.

As acusações feitas à Gestifute, a Jorge Mendes e aos seus clientes são muito, muito graves. Não me parece que irão abanar a indústria do futebol propriamente dita - as alegadas irregularidades apontam para um esquema usado por atletas multimilionários para escapar aos impostos, e nada têm a ver com o jogo em si -, mas põem em causa algumas das principais figuras do futebol mundial.

Já todos sabiam que Jorge Mendes era mais do que um simples empresário. Aliás, era mais do que um super-empresário. As áreas de atuação do comendador há muito que tinham ultrapassado as competências de um típico representante de jogadores. Sim, Jorge Mendes representava jogadores, mas também intermediava transferências, aconselhava proprietários de clubes, apostava forte na exploração de novos mercados - como o chinês - e, inclusivamente, já começava a meter o pé noutro tipo de atividades, como a indústria do entretenimento, com parcerias estabelecidas com poderosos grupos económicos que nada tinham a ver com o futebol.

No caso de todos os documentos analisados serem verídicos e as conclusões dos jornais estarem corretas, então fica à vista de todos aquilo que muitos já suspeitavam sobre Jorge Mendes.

No caso denunciado pelo Der Spiegel, Expresso, e outros órgãos de comunicação social europeus, Mendes montou um esquema que permitiu aos seus clientes pagar muito menos impostos do que deveriam. Os clientes de Jorge Mendes declaravam apenas uma pequena parte dos rendimentos provenientes de direitos de imagem (no caso de Cristiano Ronaldo, apenas 20% do total). A principal fatia era canalizada através de empresas de Mendes para contas offshore dos jogadores. Ou seja, em vez de amealhar cerca de 50% dos rendimentos em impostos, o fisco tributava apenas cerca de 10% do total (ou seja, metade dos 20% declarados). Como contrapartida pelo serviço prestado, as duas empresas de Mendes usadas para canalizar o dinheiro não declarado ao fisco, chamadas MIM e Polaris, retinham, respetivamente, 10% e 15% em comissões.



Ou seja, todos ficavam a ganhar. Todos, menos o Estado, claro. Os atletas pagavam muito menos impostos, e o empresário era recompensado com a sua habitual comissão. Segundo as notícias que foram sendo divulgadas ao longo dos últimos dias, outros atletas usufruiram deste esquema, como Ricardo Carvalho, Fábio Coentrão, James Rodriguez, Pepe e Özil.

Nada disto é uma originalidade. Infelizmente, são vários os esquemas semelhantes que permitem a muitas outras pessoas, do futebol ou de outras áreas de atividade, fugir aos impostos. Messi, como seguramente todos se recordam, foi recentemente condenado a 21 meses de prisão, com pena suspensa, por fraude fiscal. No entanto, confirmando-se tudo isto, ficamos a saber que Jorge Mendes se disponibiliza a enveredar por atividades ilegais para benefício próprio e dos seus clientes.

Agora pensem num determinado carrossel de jogadores, em que um certo conjunto de clubes compra e vende, de forma rotativa e num ritmo elevado, uma série de jogadores sobreavaliados, muitas vezes sem que haja uma explicação desportiva aparente. Estão também envolvidas figuras e fundos com fortunas de proveniência duvidosa. E no centro de tudo, está quem vocês sabem. Alguém se admiraria se os jornais descobrissem que se trata de uma esquema que vai muito para além da simples transação de jogadores?

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A reação no Porto quando se soube que Slimani não joga amanhã


Foi assim a reação no Dragão quando tiveram conhecimento de que Slimani não joga amanhã:


(piada roubada a @ariednabsfr)

Discurso para manter, discurso a evitar

Esteve bem, Bruno de Carvalho, nas declarações que fez, no início da semana, sobre o estado atual da equipa de futebol. Uma evolução positiva que se assinala em comparação com outras declarações menos felizes que fez na época passada, em que, mais do que uma vez, se referiu de forma arrogante em relação ao que os rivais faziam ou deixavam de fazer, numa altura em que o Sporting liderava a classificação.


Humildade, confiança no trabalho que está a ser desenvolvido, e respeito pela capacidade dos rivais. Tudo o que for dito para além disto não só é desnecessário, como pode até ser contraproducente para os objetivos que se pretendem alcançar. Como tal, espero que este registo seja para manter no futuro, independentemente de estarmos em primeiro, segundo ou terceiro, independentemente de termos 8. 5 ou 2 pontos de vantagem ou desvantagem sobre o adversário mais direto.

Pior esteve Jaime Marta Soares, que, pelos vistos, continua a medir mal o tempo das suas intervenções e as palavras que usa. A frase "Quem terá de ter atenção redobrada é o Benfica. O Sporting está embalado e estou convicto de que não será o Benfica a parar o Sporting" não entra para a galeria das suas piores intervenções, mas era dispensável. Primeiro, porque, sendo uma figura com responsabilidades do clube mas sem nada a ver com a equipa de futebol, o PMAG deveria abster-se de fazer comentários sobre o momento competitivo da equipa, e muito menos incluindo referências aos rivais. Depois, porque não será um fenómeno paranormal se o Benfica conseguir, efetivamente, parar o Sporting no próximo Domingo. E já se sabe que, no eventual cenário de uma vitória do Benfica, será pequena a probabilidade de Jaime Marta Soares se apressar a partilhar connosco as suas convicções sobre a equipa de futebol - tal como não as partilhou quando nos encontrávamos a sete pontos do Benfica.

E esta jogada dos iniciados?

E esta jogada dos iniciados, de onde resultou o 2º golo na vitória por 6-0 frente ao V. Setúbal? Tudo bem feito, do princípio ao fim. O golo foi marcado por Tiago Tomás, mas o mérito tem de ser atribuído a toda a equipa.


Assim se fabrica uma polémica

No final da tarde de ontem, um miúdo de 15 ou 16 anos fez um tweet onde se podia ler o seguinte:
"Eu queria ser poeta mas poeta não posso ser, porque um poeta pensa muito e eu só penso na luz a arder".

O tweet estava ilustrado com um coração verde e uma imagem de algumas cadeiras do Estádio da Luz em chamas, de um lamentável episódio provocado por adeptos do Sporting num dérbi ocorrido há cinco anos.

Para azar do autor do tweet, havia jornalistas bastante atentos à sua conta de Twitter. Porquê? Porque o miúdo de 15 ou 16 anos é filho do presidente do Conselho de Arbitragem, Fontelas Gomes. Para os jornalistas, foi argumento mais que suficiente para classificar isto como um facto suficientemente relevante para ser notícia. E assim, menos de 40 minutos após a publicação do tweet, o Record deu a notícia no online, da seguinte forma:


Poucos minutos depois, Alex Gomes apagou o tweet, mas, como seria de esperar, não tardou que a "notícia" se espalhasse por toda a comunicação social, sendo, inclusivamente, tema de debate em todos os programas de segunda à noite. Veja-se a forma como Paulo Garcia e Rui Gomes da Silva exploraram a situação: 


Rui Gomes da Silva, que é um dos maiores incendiários das redes sociais, autor compulsivo de posts que provocam os rivais, acha que tem moral para criticar um menor por causa de um tweet daqueles. É preciso um descaramento monumental.

Há muito para lamentar em todo este episódio, mas, na verdade, o tweet propriamente dito acaba por estar longe de ser o mais triste entre tudo o que se leu e ouviu.

Em primeiro lugar, porque falamos de um menor, de 15 ou 16 anos. Um tweet pouco apropriado de um rapaz de 15 ou 16 anos não é um assunto para serem explorados por jornalistas. É assunto, quando muito, para ser avaliado e tratado pelos pais.

Em segundo lugar, porque é preciso ser-se doente (e deu para ver que há muitos doentes por aí) para se levar literalmente o conteúdo do tweet e se interpretar isto como uma ameaça. Não fica bem escrever-se uma coisa destas, obviamente, mas... falamos de um rapaz de 15 ou 16 anos. Quem frequenta as redes sociais pode ler, diariamente, centenas de tweets / posts / comentários escritos por adultos que são muito, mas mesmo muito piores, do que este. Se se deixam assustar com este tweet, suponho que vivam permanentemente aterrorizados com a quantidade de alarvidades que se lêem por aí todos os dias.

Por último, a relevância da notícia. Mesmo que Alex Gomes fosse adulto, que sentido faz o Record dar destaque a um tweet destes? No texto pode ler-se que a mensagem "causou polémica nas redes sociais". Ora, na imagem que o Record apresenta, pode ver-se que o tweet tinha 3 retweets, 4 favorites e 0 respostas, o que significa que o seu impacto era, na altura, insignificante. Foi o Record, com a sua "notícia", que criou a polémica.

Mas o Record não é mais culpado do que todos os outros órgãos de comunicação social que exploraram este assunto. O que fizeram ao rapaz foi nojento. Espero que os jornalistas e comentadores que deram destaque a este assunto - que são ou um dia forem pais -, não tenham que passar por uma situação semelhante com os seus filhos. Na verdade, bem que mereciam ver os filhos a serem alvo deste tipo de atenção para perceberem a angústia que causa, mas, em primeira e última análise, os filhos não podem nem devem ser responsabilizados ou penalizados pelos pais que têm ou pelos cargos que os pais ocupam.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Olha, mais um que acordou para a praga do antijogo


Estou de acordo com quase tudo o que Delgado escreve neste artigo de opinião, mas, obviamente, não engana ninguém sobre o que realmente o incomoda. Já teve inúmeras oportunidades num passado recente para fazer as suas sugestões, mas foi preciso uma derrota do Benfica para o fazer tomar uma posição sobre o assunto.

Já se está mesmo a ver que se, um dia, o Benfica perder pontos devido a um penálti mal assinalado ou a um golo legal indevidamente anulado, não tardará para que José Manuel Delgado venha a público defender o vídeo-árbitro e as novas tecnologias.

Quem não os conhecer, que os compre.

P.S.: Em relação às sugestões, concordo inteiramente que os jogos deveriam passar a ser cronometrados em função do tempo útil, e não de 90 minutos fixos, e que os médicos deveriam poder entrar em campo para assistir jogadores com a partida em andamento, tal como se faz no râguebi. Concordo que o ónus de parar a partida não deve ser colocada nos jogadores, mas, na realidade, os árbitros também não têm condições para saber se um jogador necessita ou não de assistência médica - em caso de dúvida, terão sempre que parar o jogo e mandar entrar a equipa médica.

P.S.2: Foi isto que José Manuel Delgado, autor da crónica do Sporting 0 - Benfica 1, escreveu sobre o abusivo antijogo benfiquista nos últimos minutos da partida.


Azia à flor da pele

O Benfica perdeu com o Marítimo num jogo sem casos de arbitragem, mas não deixou de haver alguma contestação ao trabalho de Vasco Santos: Rui Vitória tentou ser subtil ("O Marítimo parou-nos de várias formas"), alguns adeptos fizeram-no de forma mais declarada. Em causa esteve, sobretudo, o antijogo praticado pelo Marítimo com a conivência do árbitro.

Houve de facto antijogo por parte do Marítimo, mas não me parece que tenha sido nada que não se veja frequentemente nos relvados portugueses. No entanto, quem tenha começado a ver o jogo a partir dos 80 minutos e ouviu aquilo que diziam os comentadores da Sport TV, só pode ter ficado a pensar que a perda de tempo estava a atingir níveis inéditos.

Na realidade, a única coisa que atingiu níveis inéditos foi a azia demonstrada por quem comentava o jogo. Basta ouvir o que foi dito no vídeo seguinte.



Sobre Vasco Santos: "O árbitro tem andado a dormir no jogo todo este tipo de faltas... o jogo todo."; "Se calhar tem chuva nos olhos, tem que comprar um limpa-parabrisas para ajudar."; "Mas isto é brincadeira, este árbitro, de facto..."
Sobre um dirigente do Marítimo: "Ele não joga futebol, está bem gordinho para isso."
Sobre o Marítimo: "Muito agressivo, no sentido de reduzir, a encurtar, a empurrar, a condicionar em bloqueios"

Entre o 2º golo do Marítimo e o final da partida decorreram 28 minutos. Nesses 28 minutos, os casos de antijogo mais evidentes foram 3 paragens para assistência de jogadores do Marítimo (China, Gottardi e Edgar Costa) - numa das quais o Benfica aproveitou para fazer entrar Carrillo -, uma câimbra resolvida sem equipa médica, uma substituição do Marítimo anormalmente prolongada, e demora na reposição de dois pontapés de baliza que valeram (e bem) amarelos a jogadores da equipa da casa. É pena que tenha sido assim, porque as pessoas pagam bom dinheiro para assistir a futebol, e não a minutos de pausas desnecessárias. Mas, sinceramente, não me lembro de alguma vez ter ouvido comentários tão assertivos - num canal supostamente isento - sobre o trabalho de uma equipa de arbitragem por causa de questões desta natureza. Aliás, estou mais habituado a que digam, no caso dos jogos do Sporting, que o adversário que pratica antijogo está apenas a usar as armas que tem à sua disposição.

Curiosamente, o mesmo Vasco Santos teve, há pouco mais de um mês, uma atuação semelhante no Nacional - Sporting, com a agravante de não ter assinalado um penálti cometido sobre Bruno César. Não me recordo de ter ouvido, na altura, tantas críticas ao antijogo do Nacional e ao desempenho da equipa de arbitragem...

domingo, 4 de dezembro de 2016

Uma oportunidade que não se quis desperdiçar

Após a derrota do Benfica na Madeira, o jogo com o V. Setúbal revestia-se de uma importância extrema. Não só pelos três pontos em disputa, que muita falta podem fazer num campeonato que se espera disputado até ao fim, mas também pela possibilidade de nos aproximarmos à distância de um braço em relação ao líder - e com a possibilidade de lhes darmos outro valente puxão na próxima jornada. Era uma daquelas oportunidades que não se podia desperdiçar, e a equipa percebeu o que estava em jogo: entrou em campo mentalizada em aproveitar todos os minutos que o relógio lhe dava para resolver a questão a seu favor.




A exibição na primeira parte - apesar de não ter havido um rendimento constante, o Sporting registou períodos muito prolongados de domínio total, em que não permitiu que o V. Setúbal respirasse. Futebol envolvente e quase sempre prático com bola, pressão sufocante em todo o campo sem bola, encostando por diversas vezes o adversário às cordas, com as oportunidades de golo a sucederem-se desde o primeiro minuto. Dessas oportunidades, três foram convertidas por William, Dost e Bruno César, ainda que, por motivos que apenas Rui Costa poderá explicar, o Sporting tenha chegado ao intervalo a vencer apenas por 2-0. Quarenta e cinco minutos esmagadores, que, em condições normais, deveriam ter chegado para fechar todas as dúvidas em relação a quem saíria de campo com os três pontos, mas que, ainda assim, acabaram por ser suficientes para se encarar a segunda parte com tranquilidade.

Meio campo de luxo - William Carvalho, Adrien Silva, Bruno César e Gelson Martins foram os melhores do Sporting. Se os dois primeiros são indiscutíveis há vários anos, já Bruno César e Gelson estão a ser, na minha opinião, as grandes revelações do Sporting 2016/17. O brasileiro, pela sua polivalência e elevado rendimento em várias posições, conseguiu, contra as expectativas da maior parte das pessoas (eu incluído), conquistar o seu espaço no onze. Ontem, marcou um golo fabuloso de livre direto, enfiando a bola no canto da baliza - o único sítio onde Bruno Varela não podia chegar. Quanto a Gelson, esteve endiabrado na primeira parte e somou mais uma assistência à sua conta pessoal (já lá vão 7 passes para golo, liderando a tabela das assistências da Liga com mais 3 que o trio perseguidor, nos quais se encontra Bryan Ruiz). Não espanta que as três substituições feitas por Jesus tenham servido para descansar estes jogadores, tal é a sua importância atual na dinâmica defensiva e ofensiva da equipa. Ah, e William marcou de cabeça... 

Rui Patrício contra o frio - perdi a conta às vezes que vi Rui Patrício a fazer exercícios de aquecimento em pleno jogo, quando o Sporting se preparava para bater livres ou cantos junto à área do V. Setúbal. Parecia desesperado em participar no jogo, enfiando-se entre os centrais quando Coates ou Semedo tinham a bola, para se envolver quase à força na primeira fase de construção. Fora isso, praticamente não teve trabalho, mas na única ocasião de verdadeiro perigo para a sua baliza - num cabeceamento forte à entrada da pequena área -, efetuou uma enorme defesa. Espero que seja sinal de que a sua fase menos boa já ficou para trás.

A homenagem ao Chapecoense - muito bonitas as referências nas camisolas e o cântico dedicado pelas claques na segunda parte. Pena, apenas, que ainda existam pessoas que acham que se deve aplaudir durante o minuto de silêncio.



Algum facilitismo na segunda parte - a segunda parte do Sporting foi fraquinha, mas percebe-se que a equipa tenha preferido gerir o esforço e a vantagem do que acelerar o ritmo da partida à procura do terceiro golo - seguem-se dois jogos importantíssimos onde estarão em causa a continuidade nas competições europeias e o assalto ao primeiro lugar. É normal, como tal, que o Sporting tenha abrandado o ritmo e proporcionado ao V. Setúbal a possibilidade de ter a bola que nunca conseguiu ter na primeira parte, mas parece-me que houve algum relaxamento por parte de alguns jogadores, que se traduziu em passes errados e más abordagens a lances que, com níveis de concentração máxima, não teriam acontecido.

Os golos anulados - não se compreende o que viu Rui Costa nos dois golos anulados a Dost e a Coates. É verdade que, no caso do golo do uruguaio, se escreveu direito por linhas tortas, pois houve um domínio de bola com o braço antes de se iniciar a segunda vaga de ataque que daria origem ao golo, mas é impossível que o árbitro tenha visto o quer que seja de irregular após esse momento. No golo anulado a Dost, existe um braço que se eleva por cima do defesa que o marcava, mas não houve qualquer tipo de impedimento na disputa de bola. Muito pior foi o empurrão a Schelotto pelas costas em Guimarães que nos custou três pontos. Coincidências da vida.



Quem diria? Há menos de um mês estávamos a sete pontos da liderança, e o jogo da Luz perfilava-se no horizonte como sendo absolutamente vital para as nossas aspirações - perdendo, ficaríamos fora da luta pelo campeonato. Com a vitória de hoje, passámos a estar apenas a dois pontos e iremos jogar, não pela sobrevivência da nossa candidatura ao título, mas pela liderança. Faz lembrar a aproximação que o Benfica conseguiu, na época passada, em véspera de dérbi, após o nosso empate a 0 em Guimarães, e que se converteria em liderança, uma semana depois, em Alvalade. Que a história se repita no próximo domingo, mas com os papéis invertidos. Eu acredito.