sábado, 17 de fevereiro de 2018

O Sporting que eu quero

A AG de hoje deveria ser sobre estatutos e regulamento disciplinar, mas não vai ser. Vai ser sobre a continuidade da direção e, em particular, do atual presidente. Mas se a AG de hoje vai ser sobre o presidente que queremos (ou não), então não é apenas assim que deve ser colocada a questão. Convém que cada sócio presente coloque a si próprio uma outra pergunta antes de exercer o seu direito de voto:

Que clube quero que seja o Sporting?

Isto porque o clube acaba inevitavelmente por refletir a imagem do seu líder, que, por sua vez, terá a tendência de se fazer rodear maioritariamente por pessoas que partilhem determinadas características. Falo de características, não de personalidade. Um líder incompetente terá tendência para se rodear de gente incompetente e construir um clube que será presa fácil para os clubes competentes e/ou aldrabões. Um líder competente terá tendência para se rodear de gente competente e construir um clube leal e competitivo. Um líder aldrabão terá tendência para se rodear de aldraboes e construir um clube cuja competitividade assenta na aldrabice. As últimas décadas do futebol português estão carregadas de exemplos destes.

Como eu quero um clube leal e competitivo, não estou disposto a abdicar do trabalho deste presidente e desta direção, com todos os defeitos que possam ter. Estamos perante uma situação em que temos de optar entre Bruno de Carvalho ou o abismo? Não necessariamente, até poderá acontecer que o seu sucessor seja igualmente competente. Mas quais serão as reais probabilidades de surgir uma alternativa igualmente competente e dedicada? Será assim tão provável que surja um presidente igualmente competente? Olhando para o historial dos nossos presidentes e dirigentes das últimas décadas, a resposta à última pergunta é tão óbvia como desanimadora: não.

Bruno de Carvalho tem, obviamente, defeitos. Defeitos esses que são bastante mais visíveis a olho nu do que as suas qualidades, e que acabam por minar, aos olhos de muitos, o excelente trabalho que tem feito. Mas, a meu ver, os principais defeitos que lhe apontam acabam por estar intimamente ligados a outras qualidades suas.

A forma como comunica. Bruno de Carvalho é frontal e direto. Para mim, são duas qualidades importantes neste futebol podre que existe em Portugal, porque é impossível um clube ser respeitado se o seu presidente comer e calar em todas as sacanices que façam a si e à instituição que dirige. Nessa sua frontalidade, usa muitas vezes termos e expressões vulgares que não gosto de ler ou ouvir - por uma questão de civilidade e, sobretudo, de eficácia: infelizmente, o presidente continua não perceber que a forma como costuma manifestar a sua frontalidade acaba por colocar a maior parte das pessoas a discutir o acessório em vez do essencial.

A quantidade de vezes que alimenta guerras desnecessariamente, seja por dar palco a gente insignificante, seja por dar mediatismo a assuntos irrelevantes. Dificilmente voltaremos a ter um presidente tão dedicado ao clube como Bruno de Carvalho. Ao contrário de muitos dirigentes que o antecederam, é perfeitamente claro que este presidente vive o Sporting e para o Sporting 24 horas por dia. Perante esse nível de imersão, consigo compreender a necessidade que sente em ir pessoalmente a todas as frentes de batalha... mas seria melhor para si (e para o Sporting) que ignorasse muitas delas, que delegasse o combate de outras, e que se reservasse para as questões verdadeiramente fundamentais. Até porque quando compra ou alimenta guerras com sportinguistas que discordam de si, acaba por ajudar a alimentar a narrativa de que é um ditador coreano que não tolera visões diferentes e é capaz de tudo para se perpetuar no poder - o que é absurdo, pois nunca esta direção desencadeou qualquer ação nesse sentido, bem pelo contrário. A marcação desta AG, em que coloca a sua permanência nas mãos dos sportinguistas em circunstâncias bastante desfavoráveis (bastam 25,01% dos votos para o retirarem do cargo) assim o demonstra.

Não quero com isto estar a encontrar justificações ou desculpas para os defeitos do homem. O que quero dizer é que, para o bem e para o mal - felizmente muito mais para o bem do que para o mal -, Bruno de Carvalho é como é - e, como em qualquer indivíduo, não podemos nem devemos esperar que seja possível compartimentar as partes boas e as partes más, de forma a ser fácil ficar apenas com o que nos agrada e descartar aquilo de que não gostamos. Seria bom que aprendesse neste capítulo como tem aprendido noutros, claro, mas ninguém é perfeito.

Para quem tenciona votar contra por não gostar dos defeitos que referi acima, ignorando tudo o resto que foi alcançado e todos os compromissos que têm sido cumpridos, não será difícil encontrar um futuro presidente cordial e recatado: existem dezenas de milhares de sportinguistas que cumprem esse requisito. O resto é que já não será tão fácil.

Porque o Sporting que eu quero tem de ser um clube competitivo, não só no futebol, como também nas modalidades.

Porque o Sporting que eu quero tem de ser um clube de princípios, independentemente da podridão que o rodeia, nos quais os sócios e adeptos se podem rever orgulhosamente.

Porque o Sporting que eu quero tem de ser um clube cheio de vitalidade, que atraia os seus sócios e adeptos para a participação ativa na sua vida, seja em dia de jogo, seja em eleições ou AG's, seja em quaisquer outros tipos de eventos.

Porque o Sporting que eu quero tem de ser um clube responsável e transparente, ambicionando um crescimento sustentado constante, que não dependa da bola que bate ou não no poste. Nunca mais quero voltar a sentir a mesma angústia que nos asfixiou há apenas cinco anos. Repito, há apenas cinco anos.

Competitividade, princípios, vitalidade, responsabilidade e transparência. Lembram-se de como estava o clube quando esta direção tomou posse? 

Competitividade? Só no futsal e pouco mais. Princípios? Abalados pelo caso Paulo Pereira Cristóvão. Vitalidade? Estádio com lotações em mínimos históricos e uma enorme percentagem de sócios com meses e meses de quotas em atraso. Responsabilidade? À beira da falência, um passivo galopante e sem ativos. Transparência? Pois...

Hoje, o Sporting é campeão no futsal, andebol, futebol feminino, ténis de mesa e atletismo, e está competitivo no futebol, hóquei e voleibol - com vários títulos europeus conquistados em diversas modalidades. O Sporting empenhou-se, com sucesso, na luta contra os fundos e pela implementação do VAR - completamente isolado, contra tudo e contra todos neste país. O Sporting tem tido um crescimento ímpar na sua história de novos associados e nas assistências no atual estádio. O Sporting tem apresentado resultados positivos de forma sistemática, recuperou a maior parte dos passes dos jogadores cedidos a troco de dinheiro para pagar despesas correntes, e fornece regularmente aos sócios detalhes da sua gestão que mais ninguém dá - arrisco a dizer no mundo inteiro -, como, por exemplo, todos os números relativos às transferências de jogadores. O Sporting, pela primeira vez em muito tempo, ganhou património, com a construção do Pavilhão João Rocha.

O nível de exigência aumentou imenso e os obstáculos no caminho de quem liderar este clube mais imensos serão. Desengane-se quem pensar que será fácil encontrar um substituto que dê a devida sequência ao trabalho que tem vindo a ser feito.

Se acho necessária toda esta novela para relegitimar o presidente e a direção? Não. Continuo a não ver nada nesta mudança de estatutos e no novo regulamento disciplinar que justifique todo este drama - de um lado e doutro da barricada. Por mim, a atual direção tem toda a legitimidade para concluir o atual mandato. Mas se o presidente - que é o homem mais odiado deste país por defender intransigentemente os interesses do Sporting, e saco de pancada preferido de uma comunicação social podre - sente necessidade de uma prova de apoio inequívoco por parte daqueles que apreciam tudo aquilo que tem feito, era só o que me faltava não lhe dar um voto de confiança total. Não incondicional, mas total, porque confio que saberá honrá-lo. Depois de tudo o que alcançou - e, mais importante, de tudo aquilo que acredito que ainda irá alcançar -, é o mínimo que posso fazer.

Bruno de Carvalho, com todas as suas virtudes e defeitos, é o presidente que eu quero para o nosso Sporting. Se é o presidente que querem também, já sabem o que têm de fazer esta tarde.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

"O sucesso é que manda, o resultado é que tudo condiciona"

Artigo de opinião de João Bonzinho sobre a AG de amanhã, no jornal A Bola:


É verdade que os resultados do futebol são importantes, mas não são fundamentais. João Bonzinho esquece-se que, em março do ano passado, Bruno de Carvalho teve uma votação de praticamente 90% numa altura em que, apesar das elevadas expectativas iniciais, a equipa de futebol estava afastada de todas as competições. Estar a colocar esse rótulo resultadista aos sportinguistas é absurdo, basta fazer um pequeno esforço de memória.

Independentemente do que acontecer amanhã, não será o futebol a determinar o futuro de Bruno de Carvalho: ou será o mérito do seu trabalho em prol do clube e SAD ao longo dos últimos cinco anos, ou será a aversão criada pela forma como comunica, aliada ao oportunismo de um grupo de pessoas que se ressente por não ter direito a tacho ou a maior protagonismo.

Trabalho/gratidão vs forma/oportunismo. É isto e só isto que amanhã estará em causa.


Um precedente muito perigoso


Durante a partida de ontem no Cazaquistão, foi noticiado que Fábio Coentrão foi suspenso por um jogo por causa de um incidente ocorrido no final do confronto entre Porto e Sporting para a Taça da Portugal. Na base da suspensão está o relatório do delegado ao jogo (e não observador, como diz a notícia acima), que viu Fábio Coentrão cuspir na direção dos espectadores.

A suspensão de Fábio Coentrão será cumprida na próxima segunda-feira, no jogo contra o Tondela. Uma baixa importante numa partida que se adivinha complicada.

Esta decisão abre um precedente muito perigoso. Desconheço se há imagens que suportem o relato do observador. Não havendo, é com enorme preocupação que olho para esta suspensão, porque fica aberta a porta para qualquer delegado ou observador arranjar livremente pretextos para suspender jogadores.

Convém não esquecer que a divulgação dos emails do Benfica nos permitiu saber que a teia de interesses inclui delegados. Vale a pena recordar o caso de Simões Dias, antigo delegado da Liga, a quem foram "desenrascados" dois bilhetes para o Benfica - Nacional, jogo do título de 2015/16, por, segundo Paulo Gonçalves, ter feito uma omissão num relatório de jogo que o "safou" a ele e a Nuno Gomes de uma sanção mais pesada. Simões Dias acabaria por sofrer as consequências dessa omissão ao ser supenso por 18 meses por falsificação de relatório. Não estou, obviamente, a acusar todos os observadores e delegados de serem capazes de fazer servicinhos destes... mas se é possível haver um delegado a omitir para ajudar um clube, então não é impossível que haja um delegado a mentir para prejudicar um clube.

Para além disso, registe-se o facto de a suspensão ter sido dada pela secção não profissional do Conselho de Disciplina, que é composto por José Manuel Meirim e pelos seguintes membros:


Convém relembrar que três destes cavalheiros - Vítor Carvalho, Leonel Gonçalves e Jorge Amaral - são três dos elementos a quem o Benfica ofereceu bilhetes para o Benfica - Juventus por estarem cheios de moral por terem evitado uma suspensão a Jorge Jesus, na altura treinador dos encarnados:


Não estou a dizer que Coentrão não tenha feito aquilo de que foi acusado - não tenho forma de saber -, mas é fundamental que existam elementos de prova concretos que não se limitem à palavra de um qualquer delegado ou observador. No atual estado de suspeição que existe no futebol português, são legítimas as dúvidas sobre se não serão fretes levados a cabo por meninos queridos ao serviço de um determinado clube.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Bom proveito da carne colocada na grelha

Demasiada carne no assador. Foi assim que encarei o onze escolhido por Jorge Jesus para o jogo desta tarde contra o Astana. Não vejo a Liga Europa como uma prioridade, havia a questão do relvado sintético, e, para além disso, sendo uma eliminatória a duas mãos, podíamos perfeitamente gerir esta primeira parte - que antecede uma deslocação complicada a Tondela - para depois resolvermos na segunda - em nossa casa, num jogo que antecede uma receção teoricamente mais fácil ao Moreirense.

A meu ver, fazia mais sentido: poupar neste, carne toda no assador em Tondela, carne necessária no assador na segunda mão, e gerir o jogo do Moreirense em função do desgaste entretanto acumulado e os riscos de suspensão para a partida seguinte, no Dragão.

Não foi isto que Jesus decidiu, pelo que, ao menos, ficasse a eliminatória já resolvida ou bem encaminhada. Mas as coisas não começaram bem: de pouco serve pôr a carne toda no assador se o aparelho não estiver a ser operado com a temperatura adequada. A intensidade colocada na primeira parte esteve abaixo das exigências, e foi preciso algum tempo de adaptação ao terreno e ao adversário até o Sporting entrar no ritmo necessário para fazer valer a diferença de nível em relação ao adversário.




Dez minutos para matar - Acuña acordou de uma primeira parte apática, e juntou-se a Gelson e Bruno Fernandes na criação de desequilíbrios, conseguindo uma entrada arrasadora na segunda parte que se traduziu em três golos que mataram o jogo e deixaram a eliminatória na nossa mão.  

À terceira foi de vez - no espaço de quatro dias, Doumbia viu-lhe serem anulados dois golos limpos, o que é um golpe profundo num ponta-de-lança que está a seco há demasiado tempo. Felizmente à terceira foi de vez. Foi só encostar, e lá voltou a meter o seu nome na lista de marcadores. Merecia. Para além disso, esteve envolvido na jogada que deu origem ao penálti.

Magia de Acuña no segundo golo - é só isto.


O aniversariante - em dia de 30º aniversário, Rui Patrício merece uma referência, quanto mais não seja por causa da excelente intervenção a dois tempos que impediu o Astana de aumentar o resultado para 2-0.



A entrada no jogo - considerando a aposta num onze muito próximo do melhor que temos para apresentar, esperava-se muito mais da primeira parte do Sporting. O início de jogo foi demasiado mau, com o meio-campo a jogar com défice de agressividade e com a defesa à deriva. Sofrer um golo absurdo em que praticamente toda a equipa foi apanhada a dormir numa reposição de bola junto à área adversária é a melhor ilustração possível para o desleixo com que a equipa entrou em campo.

O golo anulado a Doumbia - decisão escandalosa do fiscal-de-linha, já . O futebol sem VAR parece cada vez mais uma aberração.

Bryan - Foi menos um na primeira parte, mas não foi o único. Mais confusão me fez a sua segunda parte: com mais espaço, voltou a demonstrar aquela exasperante aversão à baliza adversária. Pior do que o remate ao lado, foram as oportunidades em que pareceu fazer questão de não rematar.

Gestão dos amarelos - tínhamos quatro jogadores em risco de exclusão: Coentrão, Gelson, Acuña e Bruno Fernandes. Com o resultado em 3-1, a eliminatória estava suficientemente bem encaminhada para aproveitar para limpar esses amarelos na 2ª mão. No entanto, nem um jogador o fez. Esperava um pouco de mais atenção a este tipo de pormenores por parte da estrutura e da equipa técnica.



Não houve lesões e eliminatória muito bem encaminhada. Ou seja, tirou-se o devido proveito de toda a carne posta na grelha.

Comunicado sobre a AG

Comunicado do Sporting sobre a AG do próximo sábado, emitido há pouco:




Informações sobre a Assembleia Geral de 17 de Fevereiro

A respeito da Assembleia Geral Extraordinária convocada para o próximo sábado, dia 17 de Fevereiro, pelas 14 horas, a ter lugar no Pavilhão João Rocha, vem a Mesa da Assembleia Geral do Sporting Clube de Portugal esclarecer o seguinte:

1) Só serão admitidos a participar e votar os Sócios com a quota de Janeiro de 2018 paga, desde que acompanhados de documento de identificação civil (válido e com fotografia), bem como do cartão de Sócio ou Game Box 2017/2018.

2) Não será permitida a entrada dos Sócios menores de 18 anos.

3) A credenciação terá início pelas 12 horas, nas portas 1 e 3.

4) Uma vez esgotados os lugares sentados no Pavilhão, os Sócios serão encaminhados para o Multidesportivo do Estádio José Alvalade, para aí procederem à sua credenciação e, em seguida, participarem de pleno direito na Assembleia Geral, através de videoconferência.

5) O voto será secreto, com três boletins depositados em urna, e a votação apenas decorrerá no Pavilhão e no Multidesportivo.

A Mesa da Assembleia Geral solicita a todos os Sócios que compareçam com a antecedência possível, de modo a que a entrada no Pavilhão João Rocha e o início dos trabalhos aconteçam de forma atempada e rigorosa.

Lisboa, 15 de Fevereiro de 2018.


Muito bem a Mesa da Assembleia Geral a definir a votação em urna, de forma a que todos possam exercer do seu direito de voto sem recear qualquer tipo de intimidação ou coação. Mais democrático que isto é impossível.

A teoria do fosso

A culpa é do fosso entre o futebol português e as principais ligas. A maior parte dos nossos comentadores despertou para essa realidade após a derrota caseira do Porto frente ao Liverpool por 5-0. É óbvio que uma equipa que gasta 80 milhões num central estará, à partida, suficientemente bem apetrechada para vencer qualquer equipa portuguesa. Perante as disparidades de investimento e dos salários praticados, o resultado normal será sempre a vitória da equipa que tem mais dinheiro para gastar, e não o contrário. Mas daí a achar que perder por 5-0 é um resultado que reflete esse fosso, também parece demasiada condescendência: no fim do dia, não deixam de ser 11 contra 11, e os clubes portugueses habituaram-se a ter uma série de jogadores que, mesmo tendo custado muito menos dinheiro e auferindo salários muito inferiores, estão à porta de serem recrutados pelas principais ligas. Perder por 5 é sempre um resultado catastrófico, tenha o adversário o nome que tiver, seja Liverpool, Bayern ou Basileia. A única distinção que pode ser feita é que, dentro do patamar catastrófico, há uns mais humilhantes do que outros.

O que acho mais curioso é que nas múltiplas ocasiões em que o Sporting perdeu com equipas desse patamar nas últimas duas épocas - Real Madrid, Borussia Dortmund, Barcelona e Juventus, em que, com exceção dos 2-0 de Barcelona, todas as derrotas foram por 1 golo, algumas das quais ao cair do pano - não me lembro de ter ouvido falar na teoria do fosso. O único resultado verdadeiramente anormal que o Sporting teve nas últimas edições da Liga dos Campeões foi a derrota por 2-0 em Varsóvia. De resto, discutiu taco a taco praticamente todos os jogos que fez. Pelo meio, empatou um dos jogos com a Juventus, venceu o Legia uma vez e venceu o Olympiakos duas vezes. Mas lembro-me bem das críticas que se ouviram, por exemplo, quando perdemos em Turim com uma reviravolta no último quarto de hora. Aí não me lembro de ouvir ninguém a falar em fossos. Dentro do que havia para ser cobrado, não houve condescendência.

P.S.: tenho muita pena que Ribeiro Cristóvão - aquele que receava que o Sporting humilhasse o futebol português quando saiu o Manchester City no sorteio - não tenha sido convidado ontem pela SIC Notícias para comentar o jogo. Aposto que seria apenas mais um a lamentar a existência do fosso...

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

M*rdas que só mesmo connosco, nº 15: O sermão do padre Capela na catedral

João Capela pode não ser um dos padres elencados por Adão Mendes no famoso mail enviado a Pedro Guerra, mas não há sacerdote vivo ou por nascer que possa ousar sequer desafiar o árbitro de Lisboa relativamente à qualidade com que se conduzem as celebrações na catedral. 

A celebração conduzida por João Capela no Benfica - Sporting de 2012/13 é das mais memoráveis da história do futebol português, tantos e tão bons foram os momentos espiritualmente avassaladores que proporcionou a todos os fiéis e infiéis que assistiam à missa.

Obviamente que os penáltis não assinalados por João Capela sobre Van Wolfswinkel, Capel e Viola são aqueles que saltam logo à memória, mas houve uma outra situação que conseguiu ser ainda mais pecaminosamente deliciosa. Refiro-me a este lance:


Matic teve uma entrada bárbara sobre Bruma, que bem pode acender uma velinha no santuário de Fátima a agradecer o facto de não ter contraído nenhuma lesão nesse lance. Para Capela, porém, foi uma ocorrência quase normal: assinalou a falta, mas deixou o sérvio escapar apenas com uma penitência de 3 Pais-Nossos e 2 Avé-Marias, sem qualquer cartão (!). 

Por pouco que Bruma não teve pior sorte... ao contrário de Matic, teve direito a sermão.

(via Cantinho do Morais)

Amén.

M*rdas que só mesmo connosco, nº 14: Regras à la carte

O caso mais polémico do Sporting - Feirense de domingo passado terá direito a episódio próprio desta série daqui a uns tempos, mas o jogo teve um outro acontecimento que não merece passar despercebido.

Perto do final da primeira parte, ou seja, já depois de ter acontecido o grave erro a prejudicar o Sporting, e numa altura em que o jogo estava empatado, Fredy Montero faz um remate descaído para a esquerda na área do adversário que é intercetado por um defesa com a cabeça. No entanto, a velocidade da jogada e a abordagem do defesa com os braços abertos enganam o árbitro Luís Ferreira, que pensa ter havido corte com a mão e assinala grande penalidade. O VAR viria, e bem, a dar a indicação de que o corte foi limpo, pelo que o jogo teve que prosseguir com uma bola ao solo. No entanto, a bola ao solo foi efetuada... sem que nenhum jogador do Sporting estivesse por perto para a disputar. Desta forma se transformou uma jogada de ataque do Sporting numa posse de bola para o Feirense.


--- INTERLÚDIO ---

Não deixa de ser engraçado observar a vitalidade com que o defesa do Feirense que levou com a bola na cara protestou a decisão do árbitro... mas que, depois de o VAR ter revertido a decisão, tenha precisado de ser assistido durante vários minutos em pleno relvado, sem que o árbitro tivesse pulso para o pôr fora de campo. Os 6 minutos de descontos que o árbitro acabaria por dar foram uma anedota, face ao tempo que o jogo esteve parado: só aqui foram 4 minutos e meio, mais 3 minutos e meio no golo anulado a Doumbia, fora as outras interrupções para consulta do VAR e persistente anti-jogo do Feirense.

--- FIM DO INTERLÚDIO ---

Tudo isto é estranhamente familiar, pois há pouco mais de dois anos, no Sporting - Tondela (que teve também um erro de arbitragem gravíssimo (penálti e expulsão de Rui Patrício que deu o 0-1 para o Tondela), aconteceu um episódio praticamente idêntico... em que o árbitro era também Luís Ferreira. De tal forma idêntico, que vou reaproveitar o parágrafo escrito mais acima para o descrever, fazendo apenas os ajustes necessários.

Perto do final da primeira parteNo princípio da segunda parte, ou seja, já depois de ter acontecido o grave erro a prejudicar o Sporting, e numa altura em que o jogo estava empatado, Fredy MonteroBryan Ruiz faz um remate descaído para a esquerda na área do adversário que é intercetado por um defesa com a cabeça. No entanto, a velocidade da jogada e a abordagem do defesa com os braços abertos enganam o árbitro Luís Ferreira, que pensa ter havido corte com a mão e assinala grande penalidade. O VARfiscal-de-linha viria, e bem, a dar a indicação de que o corte foi limpo, pelo que o jogo teve que prosseguir com uma bola ao solo. No entanto, a bola ao solo foi efetuada... sem que nenhum jogador do Sporting estivesse por perto para a disputar. Desta forma se transformou uma jogada de ataque do Sporting numa posse de bola para o FeirenseTondela.



Mas neste caso ainda foi pior, pois Adrien Silva tentou disputar a bola ao solo, e foi impedido de o fazer pelo árbitro, o que vai contra o que as regras estipulam:


Como podem ver na imagem acima, o árbitro não pode decidir quem toma ou não toma parte na disputa de bola ao solo. Isto não é mais do que uma migalha na enxurrada de erros cometidos, mas é outro exemplo de como se vão inclinando os campos contra o Sporting. Vale tudo, mesmo mudar as regras... seja ao nível do que está estipulado no protocolo do VAR, seja numa simples bola ao solo.

(obrigado, Cantinho do Morais!)

Link para todos os posts desta série: AQUI.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Troca de passes com Bruno & Gelson



O eufemismo do ano: "interpretação desajustada"

O Conselho de Arbitragem emitiu ontem um comunicado para esclarecer a polémica do golo anulado a Doumbia no Sporting - Feirense:


Saúda-se a preocupação da FPF em esclarecer o público sobre qual a decisão que deveria ter sido tomada, mas, por outro lado, não se entende o pudor que leva o CA a não dizer concretamente a que lance se refere. Toda a gente percebe que é do golo de Doumbia que se está a falar. Há algum motivo lógico para não o indicarem explicitamente?


O esclarecimento dado sobre o que é a fase de ataque é muito importante, mas mais uma vez não faz qualquer sentido o público ser informado apenas agora disto. Tendo havido um "esclarecimento recente aos árbitros portugueses" (quão recente? semanas? meses?), significa que andámos todos desinformados em relação ao âmbito da intervenção do videoárbitro - o que tem sido transmitido e debatido publicamente é que a análise do VAR pode recuar até ao momento em que a equipa que marcou o golo recuperou a posse de bola. Esta omissão por parte da FPF é um péssimo serviço prestado ao futebol: que sentido faz manterem adeptos, jornalistas e comentadores alheados das indicações que os árbitros devem seguir?

Ora, segundo este comunicado, a fase de ataque pode ser bem mais curta do que o período que compreende o momento em que a equipa recuperou a posse de bola e o momento em que marcou golo: basta que uma equipa deixe de procurar rapidamente a baliza adversária para acabar uma fase de ataque e iniciar outra. O conceito parece-me fazer sentido, pois é consistente com o espírito que rege o VAR nos lances do golo: eliminar erros grosseiros com impacto elevado no desfecho da jogada. Faz particularmente sentido quando há equipas como o Barcelona que mantêm a posse de bola durante períodos prolongadíssimos até atacarem a baliza - não faz sentido recuar-se um, dois ou três minutos à procura de uma falta. No entanto, esta definição de fase de ataque traz um novo tipo de problema: insere mais um nível de subjetividade, porque nem sempre um passe para trás implica uma interrupção numa fase de ataque.

Mas, centrando no que é essencial: descrever o erro de Manuel Oliveira como "interpretação desajustada" é estar a brincar com as pessoas. Interpretação desajustada pode acontecer em situações de subjetividade, o que não é definitivamente o caso em questão. Aliás, à luz desta nova definição, o erro de Manuel Oliveira é ainda mais gritante. É impossível não ter sido deliberado, pelo que é imperativo que existam consequências para o árbitro. Aquilo que se passou no domingo tem de ser investigado e punido em conformidade. Não pode haver lugar a qualquer tomada de posição corporativista, pois, a bem da reputação da classe, os árbitros flagrantemente desonestos e incompetentes não podem continuar a ser defendidos. Manuel Oliveira simplesmente não pode continuar a apitar jogos de futebol.

P.S.: já agora, não é apenas Manuel Oliveira que está a precisar de uma reciclagem profunda de conhecimentos. Pouco depois do final do jogo, Nuno Sousa, comentador da RTP 3, fez o seguinte comentário ao lance do golo de Doumbia:


O lance é bem invalidado. O Sporting não se pode queixar, até porque foi um dos defensores públicos do videoárbitro. O Sporting só se pode queixar de si próprio. Sinceramente, ouço este discurso e imagino Carlos Janela sentado em frente à televisão a bater palmas de aprovação.