quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Miserável

Que existam benfiquistas que odeiem Bruno de Carvalho, parece-me natural. Que existam adeptos "anónimos" que comentem ou até gozem com aspetos da vida privada de presidentes de outros clubes em espaços informais, também acho normal. Que uma pessoa com responsabilidades faça este tipo de comentários, revelando uma satisfação evidente por um (hipotético) problema na vida privada de outra pessoa, é apenas miserável.



Na raça



Na luta até ao fim

Se houver uma nota artística aplicada ao pragmatismo de uma exibição, então penso que se pode dizer que o Sporting atingiu praticamente a perfeição no jogo de ontem contra o Olympiacos. Jogo completamente controlado do início ao fim, capacidade para criar várias ocasiões de golo sem oferecer aos gregos espaço para contra-atacar, e bom nível de eficácia no momento de meter a bola na baliza. Um desnível acentuado que ajudou a recordar que o domínio registado no jogo da Grécia - numa altura em que tínhamos o melhor onze disponível - não foi nenhum acidente, e que consolida um percurso europeu que, mesmo se não acabar como todos desejamos, tem de ser considerado muito positivo.




Na luta, a um jogo do fim - quando o sorteio agrupou o Sporting com estes três adversários, terão sido muito poucos aqueles que imaginavam que seria possível estarmos a disputar a passagem à fase seguinte no arranque da última jornada. Será muito díficil chegar ao 2º lugar? Certamente que sim, mas olhando para o que tem sido a qualidade de jogo das várias equipas neste grupo, não é de todo impossível. Defrontaremos um Barcelona já com o 1º lugar assegurado que terá margem para rodar a equipa, e os italianos vão a um estádio sempre complicado - onde o próprio Barcelona não passou. Resta saber qual a carne que os gregos colocarão no assador, tendo o seu destino europeu já definido. Mas, seja qual for o desfecho das partidas que restam, nada pode apagar uma participação muito meritória de um clube que, após alguns anos traumáticos, se voltou a habituar a jogar de igual para igual com qualquer equipa da Europa.

Killer Dost - o holandês estreou-se a marcar na fase de grupos da Liga dos Campeões (já tinha marcado um golo em Bucareste), respondendo da melhor forma à oportunidade falhada no início da partida. Está de regresso à sua melhor forma, voltando aos registos assombrosos de eficácia finalizadora. Se continuar assim, estaremos muito mais perto de vencer os jogos que se seguirão.

O regresso de alguns dos lesionados - ainda não foi desta que o Sporting conseguiu juntar o seu onze mais forte (Coates e Acuña, por motivos distintos, não puderam jogar), mas a presença de Mathieu, William, Piccini e Coentrão eleva a capacidade desta equipa para um outro nível: os laterais, mantendo a qualidade defensiva a que já nos habituaram, estiveram muito mais ativos na manobra ofensiva do que tem sido habitual, enquanto a presença de Mathieu e William acrescenta, por si só, uma segurança muito maior nas saídas para o ataque. Mas é justo referir que tanto André Pinto como Bruno César, os dois jogadores que renderam Coates e Acuña, estiveram também a um nível elevadíssimo.

Gestão de jogo perfeita - controlo total do ritmo de jogo, resultado resolvido relativamente cedo, e até deu para utilizar as substituições para poupar alguns dos jogadores regressados de lesões. O golo sofrido não belisca uma gestão de jogo perfeita.



Banco muito curto - felizmente não foi necessário, mas as alternativas que havia no banco não eram propriamente tranquilizadoras, na eventualidade de acontecer alguma lesão ou haver necessidade de promover alguma alteração tática. Apenas dois jogadores de cariz ofensivo, sendo que um deles pouco ou nada tem rendido, e, tirando Podence, o melhor que se pode dizer de todos os jogadores que estavam sentados no banco é que podem ser úteis em situações muito específicas. Se por acaso o jogo se complicasse, dificilmente seria resolvido através de substituições. Há trabalho para fazer na janela de transferências de janeiro.



Foi um jogo entretido que não provocou grandes sobressaltos ao tão massacrado coração do adepto sportinguista, que deu mais três pontitos, mais um milhão e meio de euros para a nossa conta bancária (claro que haverá quem diga que é tudo para pagar à Doyen), e que coloca a Juventus em estado de alerta máximo para a última jornada. All in all, nada mau para uma noite de quarta-feira. Mas agora, como disse ontem um reputado treinador nacional, temos de pensar que há vida depois da Champions: é fundamental mudar o chip para o campeonato. Essa, sim, tem de ser encarada como a principal prioridade, agora e sempre.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Sporting - Vilaverdense

Sorteio realizado há pouco para os oitavos de final da Taça de Portugal:

Rio Ave - Benfica
Marítimo - Cova Piedade
Porto - V. Guimarães
U. Madeira - Aves
Sporting - Vilaverdense
Moreirense - Santa Clara
Caldas - Académica
Praiense - Farense

Sorteio favorável para o Sporting, que receberá o Vilaverdense, que ocupa atualmente a 4ª posição da série A do Campeonato de Portugal, a 8 pontos do líder, o Vizela. Nunca facilitando, mas dará para gerir o plantel num ciclo muito complicado de 8 jogos em 29 dias.






Vai ser um dia produtivo no trabalho, vai...

Youth League às 14h, UEFA Futsal Cup às 16h, Liga dos Campeões às 19h45, e uma deslocação complicada da equipa de andebol ao pavilhão do Águas Santas às 21h. Vai ser um dia produtivo no trabalho, vai...


A greve, take 2

A APAF voltou à carga e anunciou uma nova greve dos árbitros para a próxima jornada da Liga. Mas é uma greve muito especial: não é suposto abranger toda a classe, havendo apenas alguns árbitros que se declararão indisponíveis para apitar no próximo fim-de-semana. Nem seria de esperar outra coisa desta classe submissa, que no seu historial realizou apenas um boicote contra um único clube, o Sporting - por motivos ridículos quando comparados com outros episódios bem mais graves que vão acontecendo todos os anos -, pelo que nunca se atreveria a fazer uma greve a sério em fim-de-semana de Porto - Benfica.

Ontem, o Record revelou que, afinal, a única consequência da greve será...


... a inviabilização do VAR.

Portanto, podemos concluir que a classe dos árbitros não é apenas cobarde e submissa: é também muito pouco inteligente. O VAR, apesar das falhas registadas, tem sido aquilo que tem impedido o desempenho geral da arbitragem de ser um desastre completo - viu-se como foi na Taça. Os árbitros estarem a abdicar propositadamente dessa ferramenta para marcar uma posição é o maior tiro nos pés que poderiam dar. A não ser, claro, que o objetivo seja boicotar o VAR, por estar a expor de forma ainda mais evidente a falta de competência de certos árbitros e dificultar a vida aos que têm determinadas missões a cumprir...

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Benfica apresenta "O Novo Apito Dourado"

O Benfica estreou ontem um programa que, supostamente, serve de resposta às sessões semanais de tortura a que têm sido submetidos todas as terças-feiras no Porto Canal, desde que Francisco J. Marques passou a divulgar os famosos emails. O formato escolhido é semelhante ao do Universo Porto da Bancada, com um painel formado por quatro pessoas: Luís Costa Branco, o pivot; José Marinho, diretor-de-qualquer-coisa-na-comunicação-do-Benfica; António Rola, isento árbitro jubilado e especialista em recursos humanos; e António Bernardo, comentador da BTV.

Tive oportunidade de ver a parte do programa dedicada a este tema, e acho pertinente fazer alguns comentários em relação ao que vi, tanto no programa propriamente dito, como em relação às reações que se sucederam à sua emissão.


O conteúdo

Foram divulgados alguns nomes da estrutura portista que, segundo o programa, têm como missão movimentar-se nos bastidores do futebol português para conseguir obter determinados tipos de benefícios, utilizando vários métodos supostamente ilícitos. José Marinho deu alguns exemplos, como os Super Dragões serem utilizados como uma espécie de braço armado para intimidar os árbitros e respetivas famílias, a existência de ligações próximas entre um elemento da estrutura portista - António Perdigão, conselheiro para assuntos de arbitragem - e o motorista assignado pela AF Porto ao árbitro Rui Costa, ou a existência de telefonemas feitos por Pinto da Costa a um árbitro internacional para tentar acabar com a greve anunciada (e entretanto cancelada) há algumas semanas. Disse também ter em sua posse um email enviado por um alto dirigente da FPF a um alto dirigente do Porto, onde terá havido divulgação de informação confidencial. Recuperou ainda alguns episódios que já eram do conhecimento público, como as alegadas pressões de Luís Gonçalves sobre o árbitro Tiago Antunes.

Sabendo que o Porto atual continua a ter a mesma liderança que tinha nos anos 80, 90 e no Apito Dourado, não me custa absolutamente nada a acreditar que exista um fundo de verdade nas situações relatadas. O problema é que, não havendo provas, não havendo testemunhos, não havendo nada de concreto para suportar as suspeitas lançadas, tudo o que foi dito não passa de uma mão cheia de nada. Enquanto o Porto tem revelado situações claras de ilegalidade - de tráfico de influência e, potencialmente, de corrupção -, devidamente suportadas pelos emails, o Benfica estabeleceu apenas ligações que poderão ser consideradas suspeitas, mas sem concretizar a existência de qualquer ilegalidade. 

Se o Benfica tem mails e outras provas documentais em seu poder, convém que as mostre de imediato - caso contrário, não se augura grande futuro para esta iniciativa. Enquanto não houver nada de concreto para exibir, a única coisa que o Benfica conseguirá retirar deste programa é uma forma de tentar marcar a agenda mediática nos órgãos de comunicação social - com a prestimosa colaboração dos serviçais do costume (ver ponto seguinte) - e, em particular, dos programas de segunda-feira à noite. De qualquer forma, o principal objetivo do programa está longe de ser atingido.


Os serviçais

Não deixa de ser engraçado - apesar de não ser nada surpreendente - que o jornal A Bola, que durante semanas ignorou por completo as revelações feitas no Porto Canal sobre o polvo encarnado, não tenha perdido tempo a servir de caixa de ressonância sobre O Novo Apito Dourado. Às 18h30, ou seja, meia-hora depois do início do programa (que teve uma duração total de cerca de 90 minutos), o site do jornal já estava a reproduzir conteúdos revelados pelo Benfica:


Será de esperar uma postura inversa do jornal O Jogo. Não deverão ignorar por completo o programa da BTV, mas para já, no site, o destaque dado é mínimo.


Estão bem uns para os outros. Isenção é coisa que não abunda em qualquer um dos jornais.


E o Sporting, no meio disto tudo?

Vale a pena recordar algo que Horácio Piriquito, ex-membro do Conselho Fiscal da FPF, escreveu a Pedro Guerra num dos emails que levaram ao seu pedido de demissão: 
"Muitas vezes são as associações que estrangulam ou beneficiam os clubes conforme os alinhamentos 'clubísticos'. Por isso as corridas do SLB e do FCP ao domínio das associações. Se uma associação é Portista pode atrasar os pagamentos a um clube alinhado com o Benfica, e vice versa."

Estas frases, escritas em contexto de conversa privada entre camaradas afetos ao Benfica e amigos de longa data, demonstra bem que Os dirigentes de Benfica e Porto são os grandes cancros do futebol português. É um complemento elucidativo aos escândalos do Apito Dourado e do polvo encarnado - e, eventualmente, deste Novo Apito Dourado -, que em conjunto demonstram que existem dois clubes dispostos a fazer de tudo fora de campo para facilitar a vida dentro das quatro linhas. 

Comparado com isto, a denúncia caluniosa de Paulo Pereira Cristóvão é uma brincadeira de crianças - e, apesar disso, Paulo Pereira Cristóvão foi forçado a sair do Sporting no espaço de poucas semanas. Por sua vez, os presidentes de Benfica e Porto, enfiados até às orelhas nesta podridão, têm sido reeleitos sem contestação.

Mesmo não ganhando campeonatos há tanto tempo, é tão bom ser do Sporting...

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

VAR fora, dia santo na loja

Fim-de-semana alargado com mais uma eliminatória da Taça de Portugal, e a arbitragem portuguesa retomou a sua atividade presenteando-nos com exibições ao nível daquelas que tinha feito antes da paragem para os compromissos das seleções: miserável.

Em três jogos envolvendo os grandes do futebol português, não houve um que não tivesse pelo menos um erro grosseiro. Não vi os jogos dos nossos rivais, pelo que não posso afirmar que cometeram erros a beneficiar exclusivamente uma das equipas - os únicos lances que vi foram o da expulsão perdoada a Alex Telles e o do penálti perdoado a Varela -, mas o facto é que existiram decisões mal tomadas que poderão ter tido influência no resultado final.

No entanto, posso falar do que vi in loco em Alvalade e, mais tarde, pela televisão: uma quantidade desproporcionada de erros a favorecerem exclusivamente uma das equipas - não surpreendentemente, o adversário do Sporting.

A meio da primeira parte, ficou por marcar um penálti sobre Dost. O defesa do Famalicão não poderia ter sido mais óbvio no agarrão, prolongado e ostensivo, à camisola do holandês. Dos quatro pares de olhos da equipa de arbitragem que estavam no relvado, não houve um único que tivesse vislumbrado o sucedido.

Foi também óbvia a dualidade de critérios na marcação de faltas e na exibição de cartões, cumprindo-se mais um jogo que vai ao encontro de uma tendência já bem conhecida: os cartões saem com muito mais facilidade quando as faltas são cometidas por jogadores do Sporting. A partida terminou com 4 cartões amarelos mostrados a jogadores do Sporting (a maior parte por interrupção de ataques prometedores), contra apenas 1 mostrado a jogadores do Famalicão (nenhum por interrupção de ataque prometedor, e existiram vários).

Mas o lance mais inacreditável foi aquele que deu origem a uma grande penalidade marcada a favor dos visitantes:


Na mesma jogada, três erros consecutivos que acabaram por determinar uma oportunidade flagrante de o Famalicão reentrar na discussão do jogo: uma falta evidente sobre Battaglia que ficou por marcar imediatamente antes do cruzamento; posição irregular do jogador do Famalicão sobre quem é assinalado o penálti no momento do cruzamento; e não existe falta de Mattheus, pois é visível que não empurra o seu adversário - que, sentindo o braço do brasileiro nas suas costas, limitou-se a mergulhar para cavar a falta. 

Que a incompetência prolifera na arbitragem nacional, já todos sabemos. Mas fica difícil aceitar que se trata apenas de incompetência quando os erros acontecem todos a prejudicar o mesmo... porque, estatisticamente, seria expectável que pingasse um ou outro erro a prejudicar a outra equipa em campo.

Não é de estranhar que isto tenha acontecido numa competição em que não existe VAR. Não quer dizer que as arbitragens, com VAR, estejam a ser um modelo de isenção e competência - infelizmente, mesmo com VAR, continuam a cometer-se erros incompreensíveis -, mas ainda não tinha visto uma arbitragem deste calibre nesta época.

Acredito que, logisticamente, não seja possível à FPF ter VAR em todos os estádios nas primeiras eliminatórias, mas espero que Fernando Gomes anuncie a existência de videoárbitro, também na Taça de Portugal, já a partir dos oitavos-de-final. São só oito jogos, ou seja, menos do que uma jornada da Liga, pelo que não deverá ser difícil arranjar os meios humanos e tecnológicos necessários para que isso aconteça. E tem mesmo que acontecer, porque com os árbitros que temos, está mais que visto que não se pode facilitar.

sábado, 18 de novembro de 2017

Rui foi rei mais uma vez

A vitória de quinta frente ao Famalicão foi relativamente tranquila e não causou grandes sobressaltos ao coração sportinguista, mas devemos essa tranquilidade a mais uma enorme exibição de Rui Patrício. Assim se escreveu mais um capítulo de uma época em grande:



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Fantasy journalism

As fantasy leagues (ou ligas virtuais) são um fenómeno cada vez mais popular entre os adeptos de vários desportos. O formato mais normal neste tipo de passatempos é bastante simples: cada pessoa dirige uma equipa e tem um orçamento para a formar, escolhendo um conjunto de jogadores que, ao longo da época, lhe irão dando pontos em função do seu rendimento nos jogos reais. O critério de escolha que cada pessoa segue costuma andar à volta das suas preferências pessoais (normalmente todos fazemos questão em incluir alguns jogadores da nossa equipa preferida) e da perceção dos pontos que cada jogador poderá dar ao longo da competição. Tudo isto, sempre dentro das limitações que os orçamentos impõem - nunca ninguém fica com todos os jogadores que escolheria caso não existisse qualquer restrição.

No jornalismo desportivo, e em particular no que diz respeito aos editoriais da nossa imprensa escrita, passa-se um fenómeno semelhante: quando escrevem, muitos diretores/subdiretores/adjuntos parecem limitados por determinados critérios à boa maneira das fantasy leagues, e não abordam todos os temas que deviam merecer a sua atenção - preferindo restringir-se a um sub-universo da realidade que coincide com os assuntos que não colocam em causa as suas crenças pessoais. Tudo aquilo que for demasiado delicado, é como se não existisse. É uma espécie de fantasy journalism à portuguesa.

Vem isto a propósito dos editoriais que Vítor Serpa e Nuno Farinha escreveram ontem n' A Bola e Record, no dia seguinte ao rebentamento do caso Piriquito:



Duas abordagens diferentes. Serpa foi direto ao tema do momento, mas, de forma relativamente habilidosa, dirigiu-o para onde mais lhe interessava: que os emails poderão não servir de prova; que os emails envolvem figuras menores e figuras mais representativas da administração; e que os responsáveis pelas ações condenáveis são gente pouco recomendável com quem a administração do Benfica não devia conviver nem deixar agir em seu nome.

Tudo isto é um enorme understatement. Primeiro, os emails poderão não servir de prova... mas também podem servir. Neste momento isso é irrelevante para a análise que deveria ser feita à atualidade. Segundo, o caso não envolve apenas figuras menores (suponho que se refira a Pedro Guerra) e figuras mais representativas da administração (suponho que se refira a Paulo Gonçalves): já mete administradores, como Domingos Soares Oliveira, e o próprio presidente Luís Filipe Vieira. Terceiro, a gente pouco recomendável a que Serpa alude é, quer queira, quer não, gente colocada pelas altas patentes do Benfica, de forma inteiramente consciente, para fazer precisamente o tipo de tarefas que os emails revelaram. Isso faz com que a administração e presidente sejam tão pouco recomendáveis como os indivíduos que contrataram para agir em seu nome.

Mas olhar para o editorial de Nuno Farinha é um exercício ainda mais fantasioso. Farinha não só ignora por completo a questão Piriquito e os emails que a levantaram, como tem a distinta lata de falar na redução da suspensão de Nuno Saraiva e do juiz que é adepto do Sporting e daqueles que usa cachecol e publica fotos no Facebook. No dia seguinte à demissão de um membro do Conselho Fiscal da FPF e do anúncio da federação de que vai entregar o caso à PJ, Nuno Farinha acordou repentinamente para o fenómeno do papel dos diretores de comunicação. Para piorar, usa como exemplo benfiquista um esclarecimento sobre uma falha no sistema de videovigilância da Luz - repito, no dia em que rebentou o caso Piriquito e em que houve uma exigência de demissão do Benfica de um juiz que nada fez de errado, Farinha escolheu dar como exemplo um esclarecimento sobre uma falha no sistema de videovigilância. Carlos Janela, ao ler tais argumentos, deve ter aproveitado para tirar notas para distribuir pela sua lista de contactos. Isto é o fantasy journalism elevado ao seu mais alto expoente.

A abordagem habilidosa de um e a abordagem descarada de outro têm, no entanto, uma coisa em comum: nenhum dos dois jornalistas aproveitou o seu espaço de opinião - que tanta vez é usado como local de critica cerrada ao Sporting e, em especial, a Bruno de Carvalho - para aquilo que, neste caso, seria o ponto essencial da análise ao que se passou no dia anterior: repudiar, de forma clara, as ações de Horácio Piriquito e do clube que dá guarida a Pedro Guerra. 

Para pessoas que se dizem tão preocupadas com o futebol português, é estranho que não o tenham feito. Infelizmente, já todos percebemos que as regras do fantasy journalism não são as mesmas que se usam no jornalismo sério.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Meça o tráfico de influências

Crónica de José Diogo Quintela na edição de hoje do Correio da Manhã:



Manobra de diversão


A resposta do Benfica às revelações da revista Sábado que levaram à demissão de Horácio Piriquito não tardou, mas revelou-se um tiro de pólvora seca:

Na sequência da redução do castigo a Nuno Saraiva, diretor de comunicação do Sporting, o Benfica pede a demissão de um dos juizes do Tribunal Arbitral Desporto (TAD), no caso José Manuel Gião de Rodrigues Falcato, disse fonte do clube da Luz ao nosso jornal. 

José Manuel Gião de Rodrigues Falcato integrou o colégio arbitral precisamente indicado por Nuno Saraiva (cada uma das partes indica um elemento, havendo ainda um terceiro juiz), mas as águias alegam ligação ao Sporting com base na página de Facebook de José Manuel Gião de Rodrigues Falcato. 

Numa publicação do dia 1 de outubro, dia do Sporting-FC Porto, o árbitro do TAD surge numa `selfie` no Estádio de Alvalade, numa fotografia, levando alguém a perguntar-lhe: «Já perdeste o cachecol do Sporting? Estás mais bonito sem ele», pode ler-se, ao que José Manuel Gião de Rodrigues Falcato responde: «Ahaha... sempre verde... com ou sem cachecol.» 

«Perante os factos, não resta outra alternativa senão demitir-se», disse ao nosso jornal a mesma fonte encarnada. 

Recorde-se que o TAD analisou o recurso interposto pelo diretor de comunicação do Sporting, Nuno Saraiva, após o castigo inicial de 45 dias imposto pela Federação portuguesa de futebol (FPF), e decidiu reduzir essa punição para nove dias.

Nuno Saraiva tinha recebido este castigo pelas suas declarações após o jogo com o Vitória de Setúbal, para a Taça da Liga, onde criticou o árbitro Rui Oliveira.

in abola.pt (LINK)


A argumentação benfiquista é ridícula: se o juiz do TAD é do Sporting e votou a favor da redução da pena de Nuno Saraiva, então deve demitir-se. É isto, e nada mais. Não há nenhum facto que demonstre que a decisão tenha sido errada, não há nenhum indício de favorecimento ilícito, não há conhecimento de nenhum pedido de favores, nem sequer demonstrações públicas de desrespeito por outros emblemas. Não há nada, que não seja a simples constatação de ser adepto do Sporting.

Se o critério fosse esse, não sobraria ninguém para ocupar este tipo de cargos: Fernando Gomes já foi administrador da SAD do Porto, Meirim é adepto benfiquista, e poderíamos seguir por aí fora. Seria uma razia total. Pior, ser-se adepto de outros clubes que não os três grandes não é suficiente para garantir isenção: há por aí adeptos do Barreirense e do Barcelona que são bem piores do que muitos benfiquistas...

Isto é apenas mais uma demonstração de que a comunicação benfiquista está completamente à deriva. Justiça seja feita: não é nada fácil defender-se o indefensável, pelo que a saída mais fácil acaba ser a criação de manobras de diversão para tentar desviar as atenções daquilo que é essencial. Infelizmente para Luís Bernardo e companhia, a carruagem começa a ganhar demasiada embalagem para ser travada com uns raminhos secos espalhados por cima dos carris.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Obviamente, demitiu-se

"Tenho que me demitir? O que passou se?"

Desfecho inevitável. Pena apenas patético o comunicado que Horácio Piriquito escreveu para anunciar a sua saída do Conselho Fiscal da FPF. Os mails revelados pela Sábado demonstram uma completa consciência da gravidade do que estava a fazer, pelo que é escusado vir com conversas daquelas.


Não estará na altura de chamar os bois pelos nomes?

É um exercício interessante ver como os programas de informação dos diferentes canais deram a notícia do envio de documentos internos da FPF por parte de Horácio Piriquito para Pedro Guerra. A esmagadora maioria das peças identificou Pedro Guerra como sendo "um comentador ligado/afeto ao Benfica, o que é um eufemismo gritante:



Um comentador ligado/afeto a um clube é algo que pode ser utilizado para descrever João Gobern, Manuel Serrão, José de Pina ou até Rui Gomes da Silva (agora que já não faz parte da direção do clube ou da SAD), mas é curto, muito curto, para designar alguém como Pedro Guerra. A maior parte dos adeptos benfiquistas tenta fazer passar que Pedro Guerra nada tem a ver com o Benfica, mas toda a gente sabe que isso não é verdade: Pedro Guerra trabalha para o Benfica a tempo inteiro, recebe um salário do Benfica, o seu local de trabalho é em instalações do Benfica, usa a conta de email que o Benfica lhe forneceu, para tratar de assuntos que interessam, direta ou indiretamente, ao Benfica.

Está na altura de se começar a chamar os bois pelos nomes: Pedro Guerra é um elemento da estrutura do Benfica, pelo que é assim que deve ser descrito. Aquilo que faz, no âmbito das funções (sejam elas quais forem e tenham elas o nome que tiverem) que exerce no Benfica, implica o Benfica. Aquilo que determinará se o Benfica será ou não punido desportivamente - se se chegar à conclusão que existe um delito cometido por Pedro Guerra - dependerá, sobretudo, do tipo de crime que estiver em causa.

P.S.: A SportTV+ conseguiu a maior proeza de todas, que foi dar a notícia sem referir em algum momento os nomes de Horácio Piriquito, de Pedro Guerra e do Benfica. Isto é que é informação rigorosa e completa...

Mais um menino querido (ou o Piriquito que dá mais do que a patinha)

Excerto do artigo da edição de hoje da revista Sábado: LINK
O comentador Pedro Guerra recebeu durante vários meses documentos internos da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) relacionados com auditorias trimestrais, os quais não eram de divulgação pública. O acesso de Guerra a tais documentos apenas foi possível com a colaboração de Horácio Piriquito, gestor e membro do Conselho Fiscal da FPF, que lhe foi passando várias dessas auditorias.
Confrontada com os documentos em si, a Federação Portuguesa de Futebol garantiu à SÁBADO que os mesmos "são internos, sem acesso público". Questionada ainda se algum membro dos órgãos sociais poderia fazer a sua divulgação, a Federação insistiu: "São documentos internos da FPF".
Num dos emails trocados, em Setembro de 2015, depois de ter recebido mais um relatório da auditoria interna, Pedro Guerra, começando por agradecer o envio do documento - "que guardarei religiosamente e de forma confidencial, claro!", escreveu - quis saber a opinião do membro do Conselho Fiscal quanto a "uns devedores manhosos" os quais iriam deixar a Federação Portuguesa de Futebol "pendurada". "Não achas", questionou Guerra. 
Na resposta, Horário Piriquito, explicou que "muitas vezes são as associações que estrangulam ou beneficiam os clubes, conforme os alinhamentos ‘clubísticos’". Daí, continuou Horácio Piriquito, "as corridas do SLB e do FCP ao domínio das associações". "Se uma associação é portista pode atrasar os pagamentos a um clube alinhado com o Benfica, e vice-versa", acrescentou. É claro, disse ainda Horácio Piriquito, que "estas coisas nunca se podem escrever, só dizer e com pouca gente a ouvir".

As partes a negrito são de minha responsabilidade.

Infelizmente, já nada disto surpreende. A serem verdadeiros estes dados, tudo indica que estaremos perante mais uma situação de tráfico de influências, desta feita envolvendo um membro em funções dos órgãos sociais da FPF.


Fernando Gomes não pode fazer de conta que nada se passa, e tem de afastar imediatamente Horácio Piriquito da FPF.

Já agora, seria bom que a PJ aproveitasse a dica de Horácio Piriquito para olhar para a bandalheira que é o jogo de poder nas associações de futebol.

EDIT 11h06 - Entretanto a FPF já reagiu em comunicado:

"Comunicado da Federação Portuguesa de Futebol

1. A FPF tomou conhecimento no início da semana da possibilidade de documentos internos de controlo de gestão da Federação Portuguesa de Futebol terem sido partilhados com pessoas exteriores à FPF;
2. Por em causa poder estar a violação de segredo, a FPF denunciou o referido facto à Polícia Judiciária, disponibilizando-se para os procedimentos entendidos por convenientes;
3. O conteúdo da revista «Sábado», publicado esta quarta-feira online, aponta no sentido de os documentos internos da FPF terem sido partilhados por um elemento eleito para o Conselho Fiscal, pelo que a Direcção da FPF decidiu remeter nesta data, o conteúdo do artigo publicado para o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, apresentar queixa à Procuradoria Geral da República, por se tratar de eventual crime desta dependente, e requerer a realização de uma Assembleia Geral Extraordinária para discussão e votação da proposta de destituição de titular de órgão social da FPF, por violação grave de deveres estatutários."


A 'atitude' de Mathieu

Jérémy Mathieu deu ontem uma interessante entrevista ao programa Porta 10A, na Sporting TV. O jogador francês falou de vários temas, como a integração e adaptação ao Sporting e a Portugal, bem como as suas metas para a ponta final da sua carreira.

As palavras de Mathieu são um espelho da imagem que tem deixado nestes quatro meses ao serviço do Sporting: é um atleta altamente profissional, ambicioso e que, ao contrário do que muitos temiam,  veio para o Sporting totalmente motivado para continuar a conquistar títulos. Mathieu já foi campeão europeu e mundial pelo Barcelona, mas tem sido fácil perceber, pela sua postura em campo, que não veio para o campeonato português para usufruir de uma espécie de pré-reforma.

É sintomático que Mathieu tenha destacado a atitude como fator mais importante para se vencer no futebol. Se a sua qualidade enquanto central tem sido uma evidente mais-valia para o clube, aquilo que, a meu ver, tem conquistado os adeptos é, precisamente, a mentalidade demonstrada: mantém-se imperturbável sob pressão e não hesita em dar o exemplo aos colegas quando é preciso ir para cima do adversário.

Fica aqui um pequeno resumo da entrevista, preparado pelo Sporting Grande Jornal:


Não foi preciso muito tempo para percebermos o tipo de jogador que Mathieu é. A única incógnita que permanece - e que nunca se dissipará devido ao seu historial clínico - é a questão física. Mas se Mathieu conseguir evitar lesões graves durante estes dois anos de contrato e se mantiver a bitola exibicional ao nível que tem estado, "arrisca-se", de caras, a ser dos melhores centrais que já tive o privilégio de ver jogar no Sporting.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Dissecando a entrevista de Vieira, parte 4: Nuno Gaioso na linha de sucessão?

Os posts anteriores sobre a entrevista de Vieira limitam-se a apontar algumas mentiras e incoerências do presidente do Benfica, que têm o condão de passar sempre ao lado das análises da nossa atenta comunicação social, mas nada disso é particularmente relevante ou novo - tal como não é particularmente novo ou relevante o manancial de potenciais pérolas que poderão vir a ser relembradas num futuro mais ou menos próximo.

Uma das questões realmente interessantes que a entrevista abordou é a da sucessão de Vieira.

Acredito que Vieira, caso não tenha nenhum problema grave de saúde, não terá qualquer intenção de abandonar o cargo a curto ou médio prazo. Com as delicadas questões de índole particular das dívidas à banca e com o lastro de problemas (passados ou potencialmente futuros) com a lei, deixar de ser presidente do Benfica seria abdicar de um dos melhores escudos que este país tem para oferecer. Vale e Azevedo que o diga.

No entanto, Vieira nunca teve grandes problemas em falar da sua sucessão, e percebe-se porquê: é uma forma relativamente eficaz de não parecer demasiado agarrado ao lugar.

O episódio mais memorável nesta matéria aconteceu há cerca de 10 anos, quando Vieira anunciou, com toda a pompa e circunstância, que iria preparar Rui Costa para ser o seu sucessor:



Não foi preciso esperar muito para perceber que este anúncio de intenções não passava de uma forma de se aproveitar da popularidade do ainda então jogador - convém lembrar que Vieira, na altura, estava longe de ter a mesma segurança no cargo que tem atualmente. Rui Costa nunca teve perfil para ser um presidente à imagem de Vieira.

Na entrevista da semana passada, o presidente do Benfica voltou a abordar o tema:


As palavras finais de Vieira no vídeo acima são curiosas. Basicamente está a dizer que quem se quiser candidatar ao Benfica terá de pensar duas vezes porque os profissionais que ele colocou são insubstituíveis. Ou os meus, ou o caos. O desejo de dar continuidade à dinastia vieirista é clara, o que até é compreensível: nunca se sabe os problemas que poderiam aparecer caso uma pessoa não alinhada lhe sucedesse na direção do clube.

No período que antecedeu as últimas eleições, a imprensa avançava com dois candidatos a nº 2 de Vieira: José Eduardo Moniz e Nuno Gaioso. Acredito que a pessoa que Vieira tem em mente seja o último, porque a ligação com Moniz sempre pareceu uma espécie de casamento de conveniência.

Vieira e Gaioso na assinatura do protocolo com o Millonarios
Já a ligação a Nuno Gaioso, que é bastante mais jovem que Moniz, parece apresentar um potencial bem superior.  Para além de aparecer cada vez mais junto ao presidente e de estar a ganhar protagonismo nas AG's, é uma pessoa que vem do mundo da política e tem ainda um bónus nada negligenciável: é sócio do filho de Vieira na empresa Capital Criativo. Melhor que isto, do ponto de vista do atual presidente, é impossível.

Hoje, com os estatutos totalmente armadilhados, só um cataclismo impedirá que Vieira continue a ser eleito caso se apresente a votos - independentemente da oposição que lhe faça frente. E mesmo no caso de não se recandidatar, isto também se aplicará ao candidato que tiver a sua benção. É, por isso, bastante provável que Nuno Gaioso seja o próximo presidente do Benfica. Mais do que o desejo dos sócios, será o desejo de Vieira a determiná-lo. A principal dúvida que fica é quando é que isso acontecerá.

Dissecando a entrevista de Vieira, parte 3: Os consultores de arbitragem




segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Bryan Ruiz reintegrado

O Record noticiou há pouco que Bryan Ruiz foi reintegrado no grupo de trabalho liderado por Jorge Jesus. O costa-riquenho passa, portanto, a estar disponível para ser utilizado por Jorge Jesus assim que o treinador o entenda apto para competir. Esta reintegração é feita após ter-se alcançado um entendimento entre jogador, treinador e presidente.


Não sei ao certo o que se passou para Bryan Ruiz ter sido afastado da equipa, mas parece-me que esta é uma boa notícia. Bryan é um jogador caro que pode fazer uma posição para a qual o plantel não tem muitas soluções: Acuña está lesionado, Bruno César não tem dado aquilo de que a equipa precisa quando é colocado no flanco esquerdo, e Podence tem sido opção para outras posições.

O rendimento de Bryan Ruiz na época passada ficou bastante aquém do desejado, mas isso não só não foi exclusivo seu - houve muitos jogadores a jogar abaixo do esperado - como também pode ter sido prejudicado pelo desgaste acumulado ao longo de épocas consecutivas a disputar torneios internacionais no verão - mundiais, Gold Cup's, e por aí fora. Dentro do mau que foi este seu afastamento, pelo menos agora teremos um Bryan Ruiz fisicamente repousado. Utilizado com conta, peso e medida, penso que poderá ser uma mais-valia para a equipa. Uma boa notícia, portanto.


Dissecando a entrevista de Vieira, parte 2: "Devo ser a única pessoa que foi campeão e não deu nenhuma entrevista"


Vindo de um homem que é especialista em esconder-se nos momentos maus e em aparecer quando as coisas correm bem, esta afirmação só pode ser encarada com uma enorme gargalhada.

Segundo Vieira, o facto de não ter dado nenhuma entrevista é uma forma de demonstrar que a conquista da época passada foi devido ao coletivo. Más línguas poderiam dizer que não as deu para evitar perguntas incómodas sobre as revelações dos emails, que na altura andavam a sair em suaves prestações semanais - e nunca se sabe se não poderia ser desmentido logo na terça-feira seguinte. 

De qualquer forma, Vieira parece ter memória curta, porque há apenas dois anos foi protagonista de uma das mais escandalosas peças propagandistas que Portugal já teve ocasião de assistir nas últimas décadas: a mega-reportagem da SIC, dividida em três episódios, na sequência do título de 2014/15, que teve como grande protagonista... o presidente do Benfica.


As declarações de Vieira são de uma falsa humildade e só podem enganar os Serpas e os Delgados da vida, ou seja, aqueles que fazem questão de viverem enganados. E utilizando o argumento de Vieira, então em 2014/15 não terá havido mérito do coletivo... o que é uma tremenda injustiça para pessoas como Paulo Gonçalves, Nuno Cabral e Adão Mendes.

Dissecando a entrevista de Vieira, parte 1: "O Benfica nunca fez nenhuma antecipação de receitas"


A afirmação do presidente do Benfica em como o Benfica nunca fez antecipação de receitas é tão falsa como demagógica.

É falsa porque está provado que o Benfica, há não muito tempo, antecipou receitas. Refiro-me aos valores da transferência de Bernardo Silva para o Mónaco: o Benfica recorreu à sociedade financeira XXIII Capital para receber antecipadamente os valores que o Monaco tinha ficado de pagar em várias tranches.

O documento que prova que o Benfica antecipou o recebimento desses valores foi divulgado pelo Football Leaks em janeiro de 2016.




Na altura, o Benfica reagiu em comunicado dizendo que a antecipação de receitas de transferências de jogadores era "uma vulgar operação financeira à semelhança de outras já feitas por esta e muitas outras sociedades desportivas". Ou seja, o Benfica reconheceu, em comunicado, que já tinha feito outras antecipações de receitas de transferências de jogadores, desmentindo, portanto, aquilo que o presidente do Benfica disse a todos os sócios e adeptos na entrevista da semana passada.

Para piorar, Vieira também mentiu ao dizer que qualquer antecipação de receita que houvesse seria para o pagamento de dívida. A antecipação de receita que o documento revelado pelo Football Leaks refere-se a tranches referentes ao período compreendido entre julho de 2015 e julho de 2016. Nesse período, a dívida abatida pelo Benfica foi marginal, muito inferior ao valor oficial da transferência de Bernardo Silva para o Monaco. Isto significa que o valor antecipado não foi destinado ao abatimento de dívida.

É fácil percebe a razão que levou o presidente do Benfica a fazer esta afirmação: distinguir-se positivamente em relação aos rivais. Segundo o último R&C, o Benfica não tem qualquer dívida referente a factoring (o que quer dizer pouco, porque os vários R&C's trimestrais de 2014/15 omitiram a antecipação de receitas da transferência de Bernardo Silva), em oposição a Sporting e Porto, que reportaram nas suas contas a existência de receitas antecipadas.

A afirmação de Vieira na entrevista é, portanto, falsa. Mas mesmo que fosse verdadeira, não passaria de demagogia barata destinada a enganar os benfiquistas. A antecipação de receitas não é mais do que uma forma alternativa de endividamento. Qual é a diferença entre pedir uma antecipação de uma receita de 15,75 milhões referente a uma transferência em relação a contrair um empréstimo obrigacionista do mesmo valor? No fim do dia, vai dar ao mesmo: quem antecipa receitas, fica com o dinheiro disponível mais cedo e perde o direito de as receber quando a prestação vencer, pagando, como contrapartida, uma comissão à sociedade financeira a que recorreu; quem contrai um empréstimo obrigacionista (ou outro tipo de financiamento) fica com esse dinheiro disponível de imediato e terá um dia de o pagar com juros - recorrendo, obviamente, ao dinheiro de outras receitas que entretanto for obtendo. E, como se sabe, não há clube em Portugal que tenha contraído mais empréstimos obrigacionistas do que o Benfica.


domingo, 12 de novembro de 2017

Sábado em cheio nas modalidades

No andebol, o Sporting venceu de forma categórica o Besiktas por 34 - 27 e deu um passo fundamental para se manter na disputa pelo segundo lugar do grupo, que dá acesso à fase seguinte da Liga dos Campeões da EHF.


No próximo sábado, o Sporting desloca-se à Ucrânia para um jogo decisivo na luta pelo 2º lugar. Uma eventual vitória frente ao Motor colocar-nos-á em boa posição para conseguirmos a qualificação, pois os ucranianos ainda terão de defrontar o Montpellier na última jornada. O Sporting vai à Rússia na 9ª jornada defrontar o Chekhovskie Medvedi, e receberá o Metalurg no João Rocha na última jornada.


Em voleibol, vitória tranquila por 3-0 frente ao Leixões, que mantém o Sporting em segundo lugar na classificação, com a possibilidade de igualar o Benfica (que tem um jogo a mais) na liderança.


Mas o jogo mais emocionante da tarde estava reservado para a visita do Sporting ao Juventude de Viana, em hóquei. O Sporting liderou o marcador desde os primeiros segundos, mas a equipa da casa acabaria por empatar a 50 segundos do fim com uma decisão muito polémica de arbitragem: transformaram uma falta sobre Caio (que seria a 10ª falta do Juv. Viana) numa simulação (que foi a 10ª falta do Sporting). Felizmente ainda houve tempo, nos últimos segundos, para o Sporting fazer o 3-2 repor a justiça no marcador, com outra decisão polémica de arbitragem.


O Sporting segue com 4 vitórias em 4 jogos, a par de Benfica e Oliveirense. O Porto também segue apenas com vitórias, mas tem um jogo a menos.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A defesa de Miguel Lucas Pires

Miguel Lucas Pires, o juiz do TAD a quem o Benfica ofereceu cinco bilhetes através de Fernando Seara, invocou à revista Sábado o direito de resposta para contar a sua versão dos acontecimentos - que pode ser lida aqui: LINK.

A resposta é longa e está separada em vários pontos, mas gostaria de destacar a seguinte parte:
14. Acresce, ainda, que à data dos factos (Abril de 2017), não exercia funções de árbitro em nenhum processo em que fosse parte o Sport Lisboa e Benfica ou alguma das diversas empresas do seu universo empresarial, ou algum jogador, treinador, dirigente ou funcionário.
15. Desde a data dos factos e a até à presente data, não exerci funções de árbitro em nenhum processo em que fosse parte o Sport Lisboa e Benfica ou alguma das diversas empresas do seu universo empresarial, ou algum jogador, treinador, dirigente ou funcionário.

Isto não é verdade. Em junho de 2017, o TAD pronunciou-se sobre o processo que o Benfica colocou a Bruno de Carvalho. Miguel Lucas Pires foi o árbitro nomeado pelo Benfica nesse processo.


Mais uma cortesia descoberta, desta vez a um juiz do TAD

"Juiz" do Tribunal Arbitral do Desporto apanhado a pedir bilhetes ao Benfica

Miguel Lucas Pires confirmou ter solicitado através de Fernando Seara ingressos para um jogo no Estádio da Luz, mas garantiu não ter violado o Estatuto Deontológico dos árbitros do TAD.

Foi a 11 de Abril deste ano que o administrador da SAD do Benfica Domingos Soares Oliveira encaminhou por email um pedido: cinco bilhetes para o jogo Benfica-Marítimo da época passada. Os lugares, segundo o administrador, deveriam ser "jeitosos". Na resposta, Ana Zagalo, funcionária da direcção comercial, informou que "o melhor" disponível era no piso 1, bancada BTV ou no piso 1, sector 39, mais próximo da Tribuna Presidencial, mas menos central. O pedido em causa chegou ao administrador da SAD através de Fernando Seara e destinava-se a Miguel Lucas Pires, árbitro no Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), indicado pelo Benfica em alguns processos que correram naquele tribunal, como, por exemplo, o caso dos vouchers.

O Estatuto Deontológico do TAD é claro: "Quer durante quer depois de concluída a arbitragem, nenhum árbitro deve aceitar oferta ou favor proveniente, directa ou indirectamente, de qualquer das partes, salvo se corresponder aos usos sociais aceitáveis no domínio da arbitragem". O código de conduta estabelece que um árbitro designado por uma das partes "não é seu representante ou mandatário, estando, em todas as circunstâncias, sujeito às obrigações deontológicas previstas neste Estatuto", isto é, imparcialidade e independência.

Em resposta à SÁBADO, depois de questionado se tal pedido não violaria o estatuto de árbitro, Miguel Lucas Pires confirmou ter solicitado ingressos através de Fernando Seara, sublinhando nunca ter solicitado bilhetes a "a qualquer dirigente, funcionário, treinador ou jogador do Benfica". "À data em que foram solicitados os convites em causa, o Prof. Fernando Seara, ao que julgo saber, não exercia qualquer cargo na estrutura directiva do Benfica", referiu ainda Miguel Lucas Pires, acrescentando ter "há décadas" uma relação de amizade com Fernando Seara, desde o tempo em que este foi secretário-geral adjunto do CDS, liderado pelo seu tio, Francisco Lucas Pires.

Leia mais na edição nº706 da SÁBADO a partir de quinta-feira nas bancas (LINK)

A revista Sábado revela na edição de hoje mais uma oferta de bilhetes do Benfica a uma figura com um cargo relevante no edifício do futebol português. Desta vez, Domingos Soares Oliveira deu indicações para serem oferecidos cinco lugares "jeitosos" a Miguel Lucas Pires, juiz do TAD que tem sido chamado a deliberar sobre processos que envolvem o Benfica ou os seus rivais.

Miguel Lucas Pires defende-se dizendo que nunca pediu bilhetes diretamente ao Benfica ou a seus funcionários, mas isso é uma pobre desculpa: usar um intermediário para obter um favor de um clube é, neste caso, tão grave como o pedir diretamente. Pediu os bilhetes a Seara, mas sabia que Seara tem acesso privilegiado às figuras mais importantes do Benfica. E Seara, ao fazer o pedido, fez questão de indicar ao Benfica quem seria o destinatário das borlas. Está à vista de todos que o cargo do beneficiário desta cortesia não é indiferente às atitudes tomadas pelos diferentes intervenientes. 

Se Miguel Lucas Pires queria ver um jogo do Benfica, tinha bom remédio: comprar bilhetes como qualquer outro cidadão. Preferiu ir pelo caminho mais fácil, mas isso não é conduta compatível com o cargo que ocupa. Num país a sério, Miguel Lucas Pires teria de ser afastado imediatamente do TAD.

P.S.: como começa a ficar complicado recordar todas as informações já reveladas, aqui fica uma lista das ofertas de bilhetes do Benfica a pessoas com cargos de responsabilidade no futebol português:
  • Convites duplos para o jogo Benfica - Juventus para vários elementos do Conselho de Disciplina que tinham ficado "cheios de moral" por terem livrado Jorge Jesus de um castigo: Manuel Saraiva, Vítor Carvalho, Domingos Cordeiro, Leonel Gonçalves, Jorge Amaral e João Guimas - a pedido de João Leal, responsável pelos registos e transferências da FPF;
  • Convite (incluindo viagem, estadia e bilhete) para a final da Liga Europa para: Andreia Couto, dirigente da Liga;
  • Convite (incluindo viagem, estadia e bilhete) para a final da Liga Europa para Emídio Fidalgo, responsável pela nomeação dos delegados da Liga e peça fundamental para ignorar os incidentes que envolveram Jorge Jesus em Guimarães;
  • Convite (incluindo viagem, estadia e bilhete) para a final da Liga Europa para Nuno Cabral, delegado da Liga e auto-proclamado candidato a menino querido do Benfica;
  • Cinco convites para o jogo Benfica - Nacional para Nuno Cabral, delegado da Liga e auto-proclamado candidato a menino querido do Benfica, dois dos quais seriam destinados a dois árbitros assistentes;
  • Convite duplo para o jogo Benfica - Nacional para Ferreira Nunes (a.k.a. Frankc Vargas), para o camarote presidencial;
  • Convite duplo para o jogo Benfica - Nacional (jogo do título de 2015/16) para Simões Dias, ex-delegado que "safou" Paulo Gonçalves e Nuno Gomes de um castigo maior;
  • Oferta de 50 bilhetes para o jogo Benfica - Marítimo a Luciano Gonçalves, presidente da APAF.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Bruno de Carvalho tem de se demitir

Depois de ter ouvido este pedaço da reportagem da CMTV sobre a denúncia feita por Paulo Pereira Cristóvão, Bruno de Carvalho deixa de ter margem para se manter como presidente do Sporting e só tem um caminho: a demissão.

Peço a vossa melhor atenção para este vídeo:








Graças a este magnífico pedaço de jornalismo, ficámos a saber que Tanaka não custou ao Sporting os 750.000 euros que foram anunciados na altura, mas sim 750 milhões! Isto é o caso mais flagrante de gestão danosa que existe na história do futebol mundial, porque com este dinheiro todo poderíamos ter contratado quase todo o melhor XI da FIFA...

Rua, Bruno!

P.S.: justiça seja feita à jornalista em causa: quando falou em 750 milhões, não especificou a moeda ou a unidade de conversão a que se referia. Até se pode dar o caso de ter razão, porque, na realidade, Tanaka custou 750 milhões... de décimos de cêntimo de euro ao Sporting.


Evolução dos proveitos e custos operacionais

Na semana passada, no post em que fiz uma análise às contas dos três grandes, fiz algumas considerações sobre o trabalho que tem sido realizado no Sporting ao nível da captação de receitas (podem ler neste LINK). Vou agora complementá-las com os habituais quadros que mostram a sua evolução ao longo das últimas épocas.

Começando pelas receitas, houve um crescimento generalizado nas várias fontes de receitas. O aumento mais acentuado deu-se ao nível das proveitos provenientes da participação nas competições europeias. Apesar de todas as rúbricas terem apresentado valores superiores em relação a 2015/16, algumas das quais em percentagens bastante apreciáveis, confesso-me desiludido com o valor dos patrocínios: esperava um salto superior com o patrocínio da NOS a tempo inteiro (na época anterior apenas existiu no 2º semestre). Na realidade, o Sporting apenas faturou mais 1,5 milhões a mais do que em 2014/15, última época com a Meo e a primeira com a Macron, o que não é propriamente motivo para festejos. O contrato com a Macron foi entretanto renovado, com efeitos a partir da época em curso, pelo que estou curioso para ver qual será a evolução registada no primeiro trimestre de 2017/18. As restantes rubricas deverão manter o mesmo ritmo de crescimento moderado.


Ao nível dos custos operacionais, os fornecimentos e serviços externos parecem perfeitamente controlados. Em relação aos custos com pessoal, a situação, como se sabe, é diferente: os gastos com salários na equipa de futebol têm sofrido aumentos consideráveis nas últimas duas épocas. Em 2017/18, suspeito que haverá um novo aumento dos custos com pessoal, ainda que num ritmo bastante inferior ao que se verificou em 2015/16 e 2016/17.


Os resultados operacionais foram, de longe, os melhores de sempre na história do Sporting. No entanto, deve haver consciência que estamos a correr alguns riscos com o nível atual de custos com o plantel e equipa técnica - cujo crescimento não tem sido, nem de perto nem de longe, acompanhado pelas receitas ordinárias. Em 2017/18, teremos de fazer uma grande venda (ou duas boas vendas), não deveremos para evitar prejuízos. 

Convém que se comece a olhar um pouco mais à frente, pois o que se passará na época de 2018/19 é uma grande incógnita: por um lado, entra em vigor o novo contrato televisivo com a NOS, o que levará a um aumento considerável dessas receitas; por outro, Portugal terá menos uma equipa na Liga dos Campeões (só uma se apura diretamente e outra irá à 3ª pré-eliminatória). Sem prémios da UEFA, sem marketpool da Liga dos Campeões, sem as bilheteiras das visitas dos tubarões e sem a montra para os jogadores, quem ficar de fora terá, certamente, que fazer ajustes significativos à sua estrutura de custos.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Rescaldo do jogo com o Braga

A arbitragem

Saí do estádio e cometi o erro de ligar o rádio para ouvir as entrevistas rápidas na RR. Enquanto jogadores e treinadores não chegavam ao local das entrevistas rápidas para fazerem as suas declarações, os cavalheiros de serviço na emissora católica nacional deram nota 1 a Xistra por, segundo a sua opinião, o árbitro ter beneficiado de forma clara o Sporting. Concordo com a nota mas, no cômputo geral, não se pode dizer que o Sporting tenha sido beneficiado de uma forma clara. 

O grande erro do jogo foi, obviamente, o golo anulado ao Braga. Com a existência de VAR, é inaceitável que aconteçam situações destas nos lances de dúvida de fora-de-jogo - o árbitro deve deixar sempre seguir mesmo que o fiscal-de-linha assinale a posição irregular, e depois reavalia-se pelas repetições se for golo. Pouco depois, há um penálti sobre Podence - de que não me apercebi no estádio -, mas que, recorrendo às imagens, o VAR também podia ter assinalado. Doumbia fez falta segundos antes do penálti sobre Alan Ruiz, mas este é um erro que, na minha opinião, é desculpável, porque existem n casos destes em todos os jogos que são assinalados (ou não) de forma errática. Depois ainda houve a questão disciplinar: Esgaio fez faltas para amarelo suficientes para não acabar o jogo, e André Pinto devia ter visto o segundo amarelo quando comete uma falta junto à grande área do Sporting, aos 93', quando o resultado estava em 1-2.

A arbitragem foi péssima, no geral o Braga tem mais razões de queixa - pelo que considero que o Sporting foi beneficiado -, mas não foi o roubo de igreja que andam para aí a querer vender. E está muito longe de anular os benefícios que outros têm tido desde que o campeonato começou.


A exibição

Os senhores da RR também disseram que o Braga fez uma exibição muito superior ao Sporting e que, como tal, o resultado acabou por ser muito injusto para os minhotos. 

Concordo que o Sporting fez um jogo pouco conseguido, mas é absurdo dizer-se que o Braga tenha feito melhor. Na primeira parte, Rui Patrício foi um mero espectador, e os únicos calafrios por que passou surgiram a partir de desatenções de jogadores nossos. Nos primeiros 75', o Braga teve uma única verdadeira oportunidade - a do golo anulado -, enquanto o Sporting teve várias: no início, Bruno Fernandes (após grande passe de Dost) surge na cara do guarda-redes e define mal; ainda durante a primeira parte, Matheus teve uma brilhante defesa a cabeceamento de Coates e outra boa parada de um livre de Bruno Fernandes; na segunda parte, Dost atira à malha lateral após cruzamento de Jonathan; e, poucos minutos depois, o holandês marcou o golo. Neste período, repito, o Braga teve uma ocasião para marcar. Com o resultado em 1-0, Abel finalmente arrisca, e só a partir dos 75' é que o Braga começa a ameaçar a baliza de Rui Patrício: Gelson tira de forma brilhante uma oportunidade de golo a Esgaio; Fransérgio escapa a André Pinto e faz um remate que sai próximo do poste; e depois surgiram os dois golos do Braga, com uma oportunidade perdida por Doumbia pelo meio.

Olhando exclusivamente para o futebol jogado, só quem não viu os primeiros 75' pode dizer que o Braga mereceu ganhar.


Jesus e as lesões

É uma pena que o Sporting tenha consentido este empate após ter tido uma prestação bastante satisfatória neste complicado ciclo de jogos que agora terminou. Ontem, Jesus foi forçado a fazer mais duas substituições devido a lesões. O melhor período do Braga coincide com uma fase em que o Sporting tinha de fora mais de meia-equipa habitualmente titular: Piccini, Coentrão, Mathieu, William, Acuña e Dost. Parece haver, efetivamente, um problema de gestão física dos jogadores do Sporting. A rotatividade (não me refiro a trocar quatro ou cinco jogadores de cada vez, mas sim em ir fazendo mudanças pontuais no onze para gerir fisica e psicologicamente o plantel) tem sido feita em função das lesões, quando, na realidade, devia ser feita de forma a prevenir lesões. 

Jesus tem de rever a estratégia que tem seguido. O próximo ciclo terá 9 jogos num espaço de 35 dias e poderá definir o futuro do Sporting em quatro competições. Está visto que não temos plantel para ir a todas, pelo que as prioridades deveriam estar bem definidas: campeonato e Taça de Portugal à frente de todas as outras.

domingo, 5 de novembro de 2017

Prometedor

Uma das boas exibições de terça-feira passada foi a de Stefan Ristovski. O lateral macedónio fez o seu primeiro jogo a sério como titular (já tinha jogado contra Marítimo, para a Taça da Liga, e Oleiros, para a Taça de Portugal) e teve um desempenho prometedor. Num jogo que assentava que nem uma luva às características de Piccini, Ristovski teve um excelente desempenho defensivo, anulando Mandzukic e dando muito trabalho ao "fresco" Douglas Costa. Não teve grandes oportunidades para subir pelo flanco, apesar de ter pedido a bola aos companheiros por diversas vezes - deu ideia que os colegas de equipa simplesmente não estão habituados a ter um lateral predisposto a fazê-lo.

Será uma das curiosidades do próximo jogo de logo: conseguirá Ristovski manter o nível exibicional contra o Braga?



sábado, 4 de novembro de 2017

A PJ foi à sede da FPF

A TVI noticiou ontem que a PJ se deslocou à FPF, por mais do que uma vez, para consultar documentos relacionados a investigação em curso sobre o caso dos emails. Segundo a notícia, a PJ está a olhar para o processo de nomeações, atribuição de notas a árbitros e relatórios de delegados, recuando até ao ano de 2011. Estas visitas realizaram-se antes de a PJ ter realizado buscas no Estádio da Luz e nas residências de Luís Filipe Vieira, Paulo Gonçalves, Pedro Guerra, Adão Mendes e Nuno Cabral.

Aqui fica a notícia para quem não teve oportunidade de ver.




sexta-feira, 3 de novembro de 2017

As contas dos três grandes

Finalmente, já se pode fazer uma comparação entre os relatórios anuais de Sporting, Benfica e Porto. Comecemos pelos proveitos operacionais:


À semelhança do que se tem verificado nas últimas épocas, o Sporting consegue ter números idênticos aos de Benfica e Porto naquilo que depende diretamente dos seus adeptos. Ao nível da vertente corporate, no entanto, continua distante dos seus rivais, apesar de se verificar uma certa aproximação em algumas dessas componentes.


Direitos TV: os valores que o Sporting recebe atualmente são superiores aos do Porto, graças à renegociação do contrato com a PPTV. Em 2017/18 os valores deverão manter-se, com a possibilidade de haver ligeiras variações em função daquilo que se receberá do marketpool da UEFA. O Benfica cumpriu o seu primeiro ano do novo contrato televisivo, conseguindo, com isso, um aumento significativo em relação à época anterior. Esta vantagem do Benfica manter-se-á em 2017/18, mas deverá ser anulada em 2018/19 com a entrada em vigor dos contratos de Sporting e Porto com a NOS e Meo, respetivamente.

Bilhetes de época: a qualificação direta para a Liga dos Campeões, depois de uma época de ausência, permitiu ao Sporting registar um aumento de 24% nas receitas com os bilhetes de época em 2016/17. Um aumento significativo que coloca o Sporting à frente dos rivais - e a uma grande distância do Porto.

Bilheteira: a fraca prestação desportiva do Sporting fez com que esta fonte de receitas estagnasse face a 2015/16. As excelentes casas com o Real Madrid e Dortmund acabaram por compensar, de certa forma, as receitas que se deixou de fazer nas competições internas, das quais nos deixámos afastar muito prematuramente. O Benfica foi, como se esperava, a equipa que mais dinheiro fez com a bilheteira, graças à excelente carreira nas competições nacionais e na Liga dos Campeões, que proporcionaram várias casas cheias. É previsível que em 2017/18 o panorama mude, se se confirmar a provável eliminação nas competições europeias e se se mantiver uma prestação abaixo das expectativas no campeonato.

Merchandising: o Benfica é a equipa que, de longe, mais dinheiro faz nesta categoria. Note-se, no entanto, que as receitas de merchandising pertencem ao clube, e não à SAD benfiquista. Apenas coloquei aqui os valores para haver um termo de comparação. O Sporting registou um aumento de 21% face a 2015/16, mas continua, na minha opinião, longe de explorar de forma perfeita o seu merchandising. A gama de produtos disponíveis continua reduzida - apesar de estar a melhorar - e as limitações físicas da loja verde também não ajudam.

Camarotes e Business Seats: apesar de ter mantido em 2016/17 o ritmo de crescimento das suas receitas corporate na ordem dos 15%, o Sporting continua a uma grande distância dos seus rivais. Continua a haver muito trabalho a fazer nesta área - não é compreensível que continue a haver tantos camarotes vazios em Alvalade.

Patrocínios e publicidade: as receitas do Sporting aumentaram 18% em relação a 2015/16 porque, ao contrário dessa época, houve patrocinador da camisola durante 2016/17 completo. Ainda assim, é um crescimento que, para mim, fica abaixo das expectativas. O fosso para o Benfica, que continua a ser o clube mais capaz de atrair patrocinadores, é muito significativo.

Prémios UEFA: a vantagem do Benfica e Porto para o Sporting é enorme, graças à boa campanha na fase de grupos de ambos os clubes e ao apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O Sporting somou pouco mais do que o prémio de participação, pois ganhou apenas um jogo nos seis em que participou. Esta época, graças à vitória no playoff e perante a perspetiva de conseguir mais pontos e continuar a carreira na Liga Europa, é expectável que o Sporting tenha um nível de receitas bastante mais interessante.


Quanto aos custos operacionais, o Sporting voltou a aumentar os gastos com os salários da equipa de futebol, aproximando-se do Porto. Ainda assim, continuou a ser o clube que menos gastou, já que o Benfica também registou um aumento semelhante. O Sporting continua a ser, de longe, o clube que menos custos tem ao nível dos FSE's (contratação de serviços, deslocações e estadias, comissões, gastos com publicidade e propaganda, honorários, etc.).


Um dos pontos fulcrais passa pela realização de mais-valias na transferência de jogadores. Os números apresentados foram os seguintes:


Pela primeira vez em muitos anos, o Sporting conseguiu ter vendas superiores às do Porto, graças, sobretudo, às transferências de João Mário e Slimani realizadas no início de 2016/17. Nestas contas ainda não entra a venda de Adrien Silva para o Leicester. O Benfica conseguiu um conjunto de vendas excecional, em que encaixou não só valores consideráveis com algumas das figuras da equipa, mas também amealhou mais uns milhões significativos com vendas de percentagens de passes que não faziam parte do plantel e direitos sobre mais-valias de atletas vendidos em anos anteriores: Ederson, Lindelof, Gonçalo Guedes, Hélder Costa, Sidnei, André Gomes, Marçal e Nelson Oliveira. As vendas de Nelson Semedo e Mitroglou foram fechadas já em 2017/18. Muitos destes negócios foram realizados em mendilhões, pelo que devem ser tomadas as devidas reservas em relação ao dinheiro que efetivamente entrou nos cofres benfiquistas.

Uma coisa se mantém: todos os clubes teriam apresentado resultados negativos se não fossem as mais-valias realizadas com a transferência de jogadores. Infelizmente, o Sporting aproximou-se bastante dos maus vícios dos seus rivais, devido a um significativo aumento dos gastos salariais com o plantel que não foi acompanhado por um crescimento proporcional das receitas ordinárias.


Para concluir, observemos os números do endividamento bancário e obrigacionista:


Benfica e Sporting aproveitaram as vendas realizadas para reduzir o seu endividamento. De notar que o Sporting o reduziu em cerca de 5 milhões, mas a maior fatia dos reembolsos foi calendarizada para julho de 2017, ou seja, já fora do período deste relatório e contas. Será expectável, portanto, que o Sporting registe, no 1º trimestre de 2017/18, uma redução ainda mais significativa dos seus empréstimos bancários. O Benfica conseguiu, pela primeira vez, abater de forma acentuada o seu endividamento, em cerca de 30 milhões. Veremos se esta tendência será ou não para se manter. No Porto, devem estar a tocar todos os alarmes: neste período de quatro anos sem títulos, o endividamento da SAD mais que duplicou (de 91,8 para 191,9 milhões). Uma cavalgada preocupante que demorará tempo a ser corrigida: duvido que os cortes que o Porto realizou sejam suficientes para inverter este cenário já em 2017/18, pelo que o endividamento deverá continuar a subir.

Resumindo, as contas de Sporting e Benfica são positivas, mas estão demasiado dependentes da realização de mais-valias em vendas. O Sporting tem uma estrutura de custos bastante controlada, mas podia e devia controlar melhor os gastos com o plantel - há vários jogadores com salários elevados que não dão o retorno desportivo esperado - e tem de apostar mais fortemente em determinadas fontes de receitas que estão a ser subaproveitadas.

No caso do Benfica, parece-me difícil que esta conjugação de fatores - sucesso desportivo arrasador e valorização exponencial de ativos - se prolongue muito mais no tempo. Mesmo considerando que o Benfica é o clube com fontes de receitas mais diversificadas, continua a ter uma estrutura de custos pesadíssima para manter a máquina a funcionar, o que poderá constituir um risco enorme para as contas caso os resultados desportivos e a valorização de atletas comece a abrandar. Como se viu no caso do Porto, bastou um par de épocas más para a SAD entrar numa espiral de prejuízos difícil de inverter - sendo que, no caso do Benfica, o nível de dependência atual do dinheiro alheio é incomparavelmente superior ao que o Porto tinha quando acabou o seu ciclo de hegemonia.

O Porto continua metido numa espiral terrível. Continua a apresentar receitas ao nível do Sporting e custos ao nível do Benfica, o que se traduz em prejuízos consideráveis e difíceis de inverter. A SAD parece consciente para isso e a ausência de investimento na equipa de futebol neste defeso ajudará a abrandar o nível de perdas. No entanto, em contrapartida, os custos com salários continuam muito elevados, a estrutura não parece estar a sofrer grandes cortes, e ainda há a compra definitiva de Oliver por 20 milhões que está agendada para dezembro de 2017 - o que significa que o Porto continuará a estar demasiado dependente das vendas de jogadores para apresentar resultados positivos. O porta-aviões começou agora a mudar de direção, para já de forma algo lenta. A velocidade da inversão de rumo dependerá da rapidez e dimensão dos cortes ao nível da equipa de futebol e da estrutura.